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TEREZINHA DE JESUS

TEREZINHA DE JESUS


"Como nos quadrinhos, a armadura de problemas rachou-se em muitos pedacinhos e foi ao chão"



Por Daniela Cucolicchio
12/05/11


No ponto de ônibus, remoía o cansaço do fim de um dia frio e nublado. Cotovelos apoiados nos joelhos, mãos nas bochechas, all star, jeans e casaco-princesinha de lã preta (seria preta a ovelha?). Olhava para o chão, vigiando as baratas que podiam aparecer, fingindo não escutar as trivialidades das duas senhoras que também esperavam o ônibus. 


— Que demora, né? Ainda preciso chegar em casa e fazer janta. É todo dia, café da manhã e janta. E ainda essa gripe... – lamentou a que tinha sardinhas pretas na face marrom-escura e era como a Terezinha da cantiga de roda da minha infância.

— Agora, com a mudança de estação, é época de gripe mesmo. Todo mundo com gripe... – revidou a que tinha cara de patroa.

— Ah lá, agora vem.

Na catraca, enquanto esperava o troco do cobrador, a senhorinha negra (não mais que 40 anos), tentando me dar passagem, olhou fundo nos meus olhos e sorriu de um jeito tão bonito e sincero que parecia estar regurgitando sua alma. Durante alguns segundos, todo o resto do mundo sumiu e eu fiquei imóvel, segurando a alma de uma desconhecida. Embasbacada, consegui apenas devolver-lhe um sorriso de menina tímida que se esconde atrás da barra da saia da mãe.

Fiquei flutuante, fruindo a beleza de um simples gesto, boquiaberta e sem palavras. Como nos quadrinhos, a armadura de problemas que eu vestia rachou-se em muitos pedacinhos e foi ao chão, e o cansaço de um dia de trabalho desmaterializou-se num ato de mágica.

Feliz com minha nova companhia, desci do ônibus e fui comer sushi sozinha. Enquanto comia, lembrei de um outro sorriso que outra vez transformou um dia ruim. Uma menininha de uns sete anos parou detrás da vitrine da academia vazia, olhou-me fixamente na esteira e sorriu lá de dentro, bem lá de dentro, desfazendo instantaneamente a mistura de raiva e tristeza que me corroía.

Tenho certeza de que existem mais desses sorrisos alheios guardados em mim, mesmo que poucos, fechados nas caixinhas de papelão da minha memória. Nestes dias de sorrisos pré-formatados, de meros movimentos faciais (“olha a foto!”), sorrisos espontâneos encantam, marcam a gente e mudam um dia ruim.

Caminhando de volta para casa, de barriga e alma cheias, fiquei pensando: será que algum desconhecido carrega um sorriso meu?

Comentários  

 
0 #2 Débora Rossetto 21-05-2011 13:09
que texto lindo.
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+1 #1 viviane bgevilacqua 13-05-2011 15:40
lindo. adorei. também quero um sorriso assim...
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