Dói ombro, punho, cabeça, estômago, coração. Dói o sexo.
Texto e foto por Daniela Cucolicchio
05/10/11
Carrego uma tristeza que não sei de onde vem, que me afunda em mim, socando com um pilão. O mundo, meu mundo, invagina-me e, quanto mais dentro, mais faltam o ar, a voz, os gestos largos, as imagens. Menos escuto, mais o mundo chega abafado até mim, num marrom-ocre desbotado, cheio de pontinhos pretos de dor. Tenho, a todo momento, um véu negro dançante que me ronda, fumaça que sufoca, cobrindo todo o meu corpo, limitando meus movimentos, não me deixando gritar. Eu nem sei gritar. Mal sei falar, as palavras saem aos tropeções, não saem todas, voltam correndo e se perdem no formigueiro interior, cabeça e peito já tomados dos mesmos caminhos. Repetições obsessivas de palavras: cansaço, preguiça, cansaço, preguiça, dúvida, dúvida, dor. Dores de odores, de velocidade, dores de horas que doem pesadas nos meus ombros enrijecidos. Dói ombro, punho, cabeça, estômago, coração. Dói o sexo. As lágrimas que não saem. "Minina tem angústia muito forte no peito", disse-me um dia a mãe-de-santo enquanto recebia o caboclo.
A angústia é como uma bexiga com um nó inviolável, atada ainda no útero, que vai enchendo, enchendo e nunca estoura nem fura, às vezes murcha numa mágica sucção a vácuo, repuxa o que está em volta, machucando pulmões, coração, estômago e olhos, então volta a encher, encher, num movimento assustadoramente infinito, tão topicamente corriqueiro e passageiro. Angústia e tristeza às vezes cedem à melancolia, quando o balão não está tensionado e a tristeza ganha deleite e a pele se arrepia com a mais singela beleza. Momentos que parecem caça em extinção. Não, caça não, pois implica ação, e à Minina falta a vontade de caçador, falta vontade de querer, Minina anda querendo tudo só um pouquinho. Encarando tudo como transitório, vivendo o agora com um desdém infinitamente demorado, perdida em pensamentos incompletos, querendo pegar carona com ciganos e viver numa linda casinha no campo, em meio à cidade grande.
Tristeza, angústia, tédio. Mistura que se reflete na desordem do quarto, roupas acumuladas pelos cantos, pelos de cachorra pelo chão, casa com resquícios de mudança há quatro meses, caixas por acabar de desfazer, coisas por guardar. A sensação contínua do inacabado e do recomeço.
"Minina vai arrumá um companheiro", disse em 2007 o caboclo através da mãe-de-santo, e logo Minina arrumou um companheiro, mas ele se foi a pedalar por outras terras. Na novela Lenz, em citação reproduzida por Lars Svendsen em Filosofia do Tédio, o dramaturgo alemão Georg Büchner diz: "a maioria das pessoas faz coisas por puro tédio, algumas se apaixonam por tédio, outras são virtuosas, outras ainda dissolutas. Quanto a mim, absolutamente nada – não tenho vontade sequer de levar minha própria vida, é entediante demais". Cansada de ser dissoluta e ainda tendo mínima esperança na própria vida, Minina quer, de novo, apaixonar-se por tédio. Hoje Minina já esqueceu o velho companheiro, não o quer mais, ele usa muito as galochas. Minina recentemente conseguiu se despedir, chance que não teve quando foi enxotada da vida dele há dois anos. Minina agora está pronta pra coisa nova, quer sapato novo e terra nova, pra passear acompanhada, pra curar o tédio.
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Comentários
Grito tão alto que minina escute o som de sua própria voz quando percebe que está pronta para coisas novas.
Escrita tocante.
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