Descomplicadas fossa2

Publicado em setembro 26th, 2013 | por Milena Moraes

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A BOA FOSSA

Nada melhor que uma boa fossa e o luto bem vivido de um amor.

A certeza de estar vivo, a redundância do sentimento sentido no último nível, a dor física que só o abandono emocional infringe. Quem já viu Jacques Brel interpretando Ne me quittes pas, escrita e composta por ele, sabe do que estou falando. Sem desmerecer, que fique bem claro, as divíssimas interpretações de Piaf e Maysa dessa música. Intérpretes que também se entregaram sem medo à fossa.

Quando o céu aberto não diz nada. Quando o sol é uma bigorna que esmaga o peito e o céu cinza é a perfeita desculpa para um mergulho na nuvem onírica de escapismo que o conjunto edredom/filme proporciona. É mandatório chorar e correr para o espelho, enxergar a própria e patética imagem, sentir pena de si mesmo e chorar ainda mais.

É necessário o porre, a apatia, o descontrole alimentar e alcoólico temporário, a autoestima ferida, o desvario. A fossa superlativa é necessária em qualquer idade. Ela despedaça, ela derruba, ela machuca. Ela produz momentos sublimes como Elis Regina cantando Atrás da Porta, do Chico Buarque.

A fossa superlativa é necessária em qualquer idade. Ela despedaça, ela derruba, ela machuca

Tanto Jacques Brel como Elis já afundaram lindamente o pé numa boa fossa e também por isso a interpretam de maneira arrebatadora. É dolorido, é lindo, é catártico. Entre o temor de que nos aconteça o mesmo, a pena que sentimos deles pelo que aconteceu e a identificação (quem nunca?), está a redenção desse sentimento. Ele nos arranca do conforto de saber que à noite se encontrará a pessoa amada.

A fossa dói, mas é boa. Ela caleja a alma.

Tudo isso porque fui arrebatada pelo trailer do filme Tatuagem, que ainda não estreou nos cinemas, mas me envolveu com essa música belamente cantada por um dos atores.

A trilha é de Helder Aragão e estes são os versos que se ouve no vídeo:

 VOLTA

Que o caminho dessa dor me atravessa

Que a vida não mais me interessa

Se você vai viver com um outro rapaz

 VOLTA

Que eu perdoo teus caminhos, teus vícios

Que eu volto até o início

Te carregando mais uma vez de volta do bar

 VOLTA

Que sem você eu já não posso viver

É impossível ter de escolher

Entre o teu cheiro e nada mais

 VOLTA

Me diz que o nosso amor não é uma mentira

E que você ainda precisa

Mais uma vez se desculpar


Sobre o Autor

Atriz, produtora e sócia da La Vaca Productora de Arte. É drama queen por natureza (imaginem quando for mãe) e vai da comédia à tragédia em segundos, "na arte e na vida".



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