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Publicado em outubro 20th, 2012 | por Vanessa Pinho

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A FILA ANDA

A verdade é que você só percebe a diferença entre o reto e o inclinado quando você está no volante.

Eu dirigia feliz, admirada em como estava me saindo bem na estrada. Não tinha deixado o carro morrer e não tinha rodopiado em curvas como de costume. Poxa, sou de dar orgulho ao meu namorado e ao meu irmão mais velho. Dirijo bem.

Eu apenas pisquei e uma rua inclinada surgiu no meio do meu trajeto. Não contava com aquela rua, muito menos que ela fosse inclinada. Na minha época de banco de carona ela era reta, mas agora que dirijo, ela inclinou.

Não contava com aquela rua, muito menos que ela fosse inclinada. Na minha época de banco de carona ela era reta, mas agora que dirijo, ela inclinou

Aquela fila parada no morro surgiu na minha frente como um leão surge no meio da floresta, do nada, querendo devorar. Fiquei sem expressão facial. Queria que a fila ficasse parada mais um pouco, pra ganhar tempo. Sabia exatamente o que tinha que fazer. Teoricamente dirijo bem.
Só tinha uma saída. Sair dali. Seguindo em frente. Porque ré, o que é ré mesmo?

Na hora lembrei de todas as senhoras que dirigem. Se tia Mercedes dirige, eu dirijo. Se tia Margarete dirige, eu dirijo. Se dona Lourdes, senhora viúva, sem fazer sexo desde 1983, dirige, eu dirijo.

No trânsito existem certas verdades absolutas. Se você não sabe fazer o balancinho, a fila vai parar no morro bem na sua vez e o sujeito que dirige a sua frente é boca semi aberta, não sinaliza entradas e freia do nada, mas o de trás, aquele que precisa que você ande logo, tem muita experiência de volante, pouco humor e está sempre atrasado.

Fiquei cinco minutos parada, a fila andou e parou três vezes, fiz três balancinhos, perdi dez quilos. O carro não correu pra trás. Sou mulher e dirijo carro. Igual meu namorado. Igual meu irmão mais velho. Eu segui pra casa, atrasada pra dirigir fogão.

Não é fácil dirigir a vida. Mas quem fica parado é poste. Clichês.

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Sobre o Autor

Fotógrafa na empresa www.fabriciapinho.com.br e cronista no Blog “Por Aqui” do Diário Catarinense. A pessoa que sai de casa pra fotografar não tem nada a ver com a que escreve no blog. Na verdade elas nem se conhecem.



One Response to A FILA ANDA

  1. Luiza says:

    “Fiquei cinco minutos parada, a fila andou e parou três vezes, fiz três balancinhos, perdi dez quilos. O carro não correu pra trás. Sou mulher e dirijo carro. Igual meu namorado. Igual meu irmão mais velho. Eu segui pra casa, atrasada pra dirigir fogão.”
    Que coisa impressionante, uma mulher dirigindo carro “igual a um homem”. Por que se você dirigisse carro igual sua mãe, sua irmã, seria uma coisa terrível né? Ah, já sei: Você dirige carro igual seu pai e dirige fogão igual sua mãe! É isso?
    Poxa moça, você não tem vergonha de ser machista assim não?

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