Descomplicadas tarmac

Publicado em outubro 26th, 2012 | por Luisa Nucada

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ACIDENTE

No meio do caminho tinha um cara caído. Eu descia a rua da minha casa para ir à universidade, uma rua-ladeira, uma rua que sobe prum morro.

No meio da rua tem uma academia de ginástica. Na frente da academia tinha um cara caído, um cara caído na calçada, ao lado de sua bicicleta desmaiada, estirada no chão.

Fui uma das primeiras a chegar até ele. Nada de sangue, ufa. Pensei em perguntar “tudo bem, moço?”, mas era óbvio que não estava tudo bem e não consegui pensar em nada melhor pra verbalizar. Um sujeito que passava por ali foi menos pateta e chamou os bombeiros.

Ele era enorme, o cara caído. Capacete, short coladinho, tênis e camiseta esportiva. Traje completo. Gemia de dor segurando o antebraço esquerdo, que estava imenso por causa do inchaço.

“Quebrei o braço, quebrei o braço”, repetia. “Como é que você fez isso, moço?”. “Fui subir na calçada, a mão escorregou do guidom, caí em cima do meu braço.”

O sol estava a pino, era aquela hora que o estômago ronca. E ele estava grelhando feito hambúrguer na chapa sobre o asfalto quente. Lembrei da aula de primeiros socorros do curso teórico recém feito na auto-escola. Não mover a vítima é regra, pode comprometer a coluna, a cervical. Mas também não dava pra deixá-lo fritando no chão, cozinhando no próprio suor. “Gente, não dá pra botar ele na sombra?”, perguntei pros dois que estavam ali perto. Entreolharam-se, com cara de “não quero ser responsabilizado”. “Foi só o braço, não machuquei mais nada, não”, advogou o moço em causa própria, acabando por convencê-los.

Os dois mal conseguiram levantá-lo do chão. Já falei que o cara era tamanho GG? Tiveram que apelar pra um terceiro, que olhava de longe, com cara de “não quero me envolver”.

Com muito esforço, depositaram o moço na calçada oposta. Montei um travesseirinho com meus livros e meu casaco, botei embaixo da cabeça do moço, você quer água, moço?

O cara que chamou os bombeiros, o que não era pateta, deu por cumprida a boa ação do dia e foi embora. O outro entrou em seu carro e disse que ia ver se os bombeiros já estavam chegando. O terceiro foi levar a bicicleta pro estacionamento da academia. Fiquei sozinha com o moço.
Sentei no meio-fio. Perguntei o nome do moço. Era um nome meio árabe, não entendi direito e achei melhor não perguntar de novo. Ele não perguntou meu nome, apenas gemia e gemia de dor, e fiquei sem saber o que dizer. Pior que em primeiro encontro.

Será que eu podia fazer mais alguma coisa? Tentei lembrar dos vídeos educativos de primeiros socorros, aqueles da auto-escola. O que é que se faz em caso de fratura, mesmo? Mas é claro que não estava prestando atenção na aula, eu devia estar enrolando uma mecha de cabelo e pensando em algum bofe.

Vieram à minha cabeça as inúmeras ocasiões em que achei que devia fazer algo e não fiz. E veio uma revolta cavalar com a minha impotência, minha incapacidade de demonstrar afeto, minha inação

Eu podia contar uma piada, podia fazer um carinho no ombro dele, dizer que ia ficar tudo bem. Eu só queria fazê-lo sentir-se menos mal, tirar seu foco daquela dor, daquele braço quebrado. Pensei em colocar alguma música pra tocar no celular. Acabei não fazendo nada, paralisada pela minha impotência.

Será que minha presença ali fazia alguma diferença? Trazia algum conforto ou só constrangimento? Ah, para, ele não estava nem aí pra minha presença, ele estava gemendo de dor, segurando um antebraço duas vezes maior que o normal! Eu é que estava desconfortável com minha presença, com minha presença ausente. O homenzarrão gemia, lamuriava, se apequenava na sua dor, e eu não podia fazer nada. Ou podia? Quantas vezes a gente não faz nada por achar que não pode fazer nada?

E com os “ai, ai, ai” como trilha sonora, vieram à minha cabeça as inúmeras ocasiões em que achei que devia fazer algo e não fiz, quando minha amiga terminou o namoro e não consegui abraçá-la, quando a velhinha passou carregada de compras e segurando uma sombrinha sob a chuva forte e não ajudei porque estava atrasada, quando o moleque de rua tentou me vender um doce e eu fingi que não vi, mas eu tinha cinquenta centavos e eles não iriam me fazer falta. E veio uma revolta cavalar com a minha impotência, minha incapacidade de demonstrar afeto, minha inação.

Aí veio alguém e interrompeu minha crise de consciência. “Nossa, quebrou mesmo, hein. E quebrou os dois, ulna e rádio. É, não tem jeito, vai ter que fazer cirurgia, vão ser dois cortes, um aqui e outro aqui. É que eu sou anestesista”. Virou as costas e foi embora. Sujeitinho inconveniente, sujeitinho intrometido. Tive vontade de mandá-lo tomar naquele lugar onde nem sol a pino bate. E sem anestesia.

Os bombeiros finalmente chegaram, depois dos 15 minutos mais longos da minha memória recente. Nessas horas que a gente vê a importância desses caras, nessas horas é que a gente vê a relatividade do tempo, nessas horas é que a gente vê como é importante usar capacete.

Os homens fizeram o serviço, igualzinho nos vídeos de primeiros socorros. Envolveram o braço do moço numa tala de papelão, puxaram pra botar os ossos no lugar, o moço berrou e esganiçou e foi de cortar o coração, eu podia sentir todos meus órgãos se contorcendo de angústia com os gritos de dor. E levaram o moço pro hospital.

No final do dia, voltando da universidade, subindo a rua da minha casa, a rua que sobe prum morro, tinha um moço enorme no meio do caminho, de short coladinho, camiseta esportiva e braço enfaixado, saindo da academia. Tinha ido avisar que pegava a bicicleta mais tarde.

“E aí, moço, tudo bem?”. “Tudo bem nada, vou ter que colocar dois pinos no braço”. Entrou num taxi e foi embora.

Nossa, vendo assim de pé, ele é realmente gigante, o moço.

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Sobre o Autor

Goiana, cruza de japonesa com baiano, estudante de jornalismo. Alimenta-se de histórias e escoa aqui e em www.anucadadisse.blogspot.com sua tagarelice mental.



3 Responses to ACIDENTE

  1. Roberto Vargas says:

    Nucada, por que será que é tão fácil eu visualizar: “…eu devia estar enrolando uma mecha de cabelo e pensando em algum bofe.”

  2. Thiago Momm says:

    Nunca esqueço de uma pesquisa dizendo que o melhor é ter problemas perto de poucas pessoas, porque quando são muitas nenhuma ajuda.
    Pelo ótimo exemplo do texto, no entanto, se acidentar em lugares com pouca gente também não adianta. Complicado.

  3. Sempre me pergunto o que faria se estive perto/numa situação dessas. Fico pensando que ia ajudar, ia saber fazer alguma coisa, ia rasgar a blusa e estancar o machucado da pessoa, como nos filmes – e como se eu fizesse a mínina ideia de como fazer isso. Mas daí eu lembro quando meu avô faleceu. Ninguém sabia o que dizer, eu não sabia o que dizer, minha mãe chorava, chorava, chorava. Meu primo chegou de porto alegre, largou tudo e sentou em prantos perto do caixão. Ele só conseguia chorar. Eu, que nunca fui muito amiga desse primo, nunca conversei muito – mesmo porque ele sempre foi muito quieto – sentei do lado dele, dei um pacotinho de papel pra ele assoar o nariz e secar momentaneamente as lágrimas, peguei na mão dele. A resposta foi um aperto forte na minha mão, um olhar de gratidão mergulhado num mar de lágrimas e ficamos ali, sei lá, uma hora. Ele, que no começo soluçava alto, não se aguentava de tristeza e se derretia, agora conseguia respirar mais calmo. Ainda bem que eu sentei do lado dele e peguei na mão dele. Tem vezes que a gente consegue fazer alguma coisa, mesmo que não pareça grande coisa. Continua querendo que um dia cê consegue :)

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