Descomplicadas primeiroamor

Publicado em agosto 2nd, 2011 | por Luisa Nucada

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AOS QUE NÃO ME AMARAM

Eu já entrava na quadra suando frio. Se não o via, alívio. Se ele estava lá, o coração saltava louco, retumbava, sacolejava, doía agudo no peito.

As mãos gelavam, o cérebro se recusava a funcionar e o resultado era um desempenho ainda pior no jogo de vôlei. Emoção maior, só quando passei no vestibular. Nosso contato mais íntimo foi a bolada que lhe acertei em cheio na cabeça, depois de um saque destrambelhado. Nunca trocamos uma palavra, mas ele me proporcionou resfolegares únicos.

Mais nova, talvez com nove, suspirava pelo coleguinha de classe. Para meu dia ser feliz bastava sentar na carteira ao lado da dele. Eu contava os avanços no relacionamento imaginário para a agenda da Capricho e declarava meus sentimentos até na poeira do carro de papai. Ah, como sofria. Nessa idade, meninos não se interessam por meninas. Eu só queria ter seios ou qualquer recurso redondo que me permitisse competir com os tazos, os discos coloridos que ele colecionava e jogava no recreio.

Eu só queria ter seios ou qualquer recurso redondo que me permitisse competir com os tazos, os discos coloridos que ele colecionava e jogava no recreio

A platonice anterior me nutriu e consumiu por uns três anos. Ele era a cara do Macaulay Culkin e eu só queria um primeiro amor para chamar de meu. Lembro dos três terços rezados pela graça de dançar com ele na quadrilha da escola. Os casais já haviam sido formados pela professora, a ditadura da altura compatível fora a minha desgraça. Desesperada, cheguei na casa da minha avó, onde almoçava, sentei na cadeira de fio da varanda e, aos choramingos, desfiei o rosário de uma só vez. Quem sabe Deus me encolhesse alguns centímetros, apenas o suficiente para fazer um par bem simétrico com ele…  “Ó céus, ó vida! Eu pareço o Mogli, eu tenho as pernas finas, eu sou mais alta que o meu amor!”. Não decresci e ele não cresceu, mas o caso é que até hoje tenho a foto da festa junina, braços dados com meu loiro amado, um dente faltante que não era lápis de olho e um rubor nas bochechas que não era blush.

Jardim de infância. A gente namorava, mas ele não sabia. Um dia, no meio do pique – esconde, pediu esconderijo à minha saia. O protegi como fazem os que amam, abrigando-o sobre o plissado do uniforme azul. A professora interrompeu a brincadeira, me chamou no canto e explicou que eu não devia deixá-lo olhar minha calcinha. Muito menos tão de perto.

Tempos bons. Tempos de novela mexicana em minha própria vida, de correr descabelada pelo campo do impossível, de idealizar e rir sozinha lavando a louça. Aqueles que não temos não nos decepcionam, entediam nem machucam. A distância protege. Aqueles que não temos estão sempre lá, no soprar de velas do aniversário, nas páginas do diário e no último pensamento antes de dormir. E nos ensinam como é gostoso amar só por esporte, assim, sem ser correspondido. Gratidão sincera aos que não me amaram.

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Sobre o Autor

Goiana, cruza de japonesa com baiano, estudante de jornalismo. Alimenta-se de histórias e escoa aqui e em www.anucadadisse.blogspot.com sua tagarelice mental.



2 Responses to AOS QUE NÃO ME AMARAM

  1. Mariana says:

    que lindo…

  2. Tatiane says:

    Eu também tinha um amor desse no colégio, durou alguns anos…
    Bons tempos em que qualquer coisa fazia valer o dia…

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