Descomplicadas

Publicado em março 18th, 2014 | por Roberta Ávila

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BOTÂNICA SENTIMENTAL

Era um jardim ajeitadinho, não tinha nada de mais.

Todo dia um monte de gente passava em volta dele, mas ele sempre soube que nem todos os jardins são iguais. Alguns jardins são mais bonitos do que outros. Alguns cheiram melhor. Uns dão fruta, outros dão flor. Tem outros que não sabem a que vieram: se são tropicais, se são de inverno, caatinga ou Mata Atlântica. Se tudo cresce sem ordem ou se são como aqueles jardins de casa americana, em que as plantas parecem de plástico, têm formatos triangulares e cada uma cresce em seu lugarzinho, igual Lego. Tem aqueles jardins que tem bancos, que tem praças. Tem aqueles onde correm cachorros e brincam crianças e tem aqueles que parecem abandonados. A gente olha de fora e parece um deserto. Não tem grama, não tem planta, mas um dia foi uma floresta. E tem jardim em que todo mundo quer passear. Ele era desse tipo. Ele não sabia porquê, mas todo mundo queria dar uma voltinha neste seu jardim.

Isso era cansativo porque ele já estava bem ocupado consigo mesmo. Era um jardim fértil até demais. É só dar a ideia que ali brota. Um jardim de ideias. Ninguém sabe direito o que cresce no meio daquela bagunça de tanta planta para todo lado, mas só de olhar a gente sabe que tem muita coisa por ali. Vira e mexe um incêndio coloca abaixo boa parte do que existe. Se o jardim fosse notícia diriam na TV que “o jardim da rua Cachoeira pegou fogo de novo. Estima-se que o fogo tenha consumido 60% da área do terreno e os bombeiros não foram chamados para controlar o incêndio. Ao invés disso, a mãe do jardim fez bolo de chocolate para animá-lo e seus amigos insistem que sair para a balada vai melhorar o paisagismo local”.

Depois do incêndio tudo começa a brotar de novo. Uma música que traz lembranças tristes deixa flores com espinhos, mas com flores. Um sapato esfolado, largado ali no meio do terreno, faz lembrar daquele dia. E daquela noite. E daquela lua. E de tirar o sapato. E de colocar o sapato. E brota de novo o labiríntico do jardim.

Cada vez a saída era mais difícil.

Alguns jardins são mais bonitos do que outros. Alguns cheiram melhor. Uns dão fruta, outros dão flor. Tem outros que não sabem a que vieram: se são tropicais, se são de inverno, caatinga ou Mata Atlântica. Se tudo cresce sem ordem ou se são como aqueles jardins de casa americana, em que as plantas parecem de plástico, têm formatos triangulares e cada uma cresce em seu lugarzinho, igual Lego.

Depois do incêndio, o jardim fica fechado por um tempo, cheio de restos carbonizados, cheiro de queimado, galhos torcidos. As pessoas olhavam com pena. Algumas simplesmente não enxergam mais aquele jardim. Mas depois começa tudo de novo. O jardim se fortalece, reabre para visitas e o mundo vem com força. É por isso mesmo que o jardim tem grades. Algumas vezes simplesmente se fecha e não quer saber de ninguém. Não aguenta tanto barulho, tanta confusão. Tanta gente. Gente que quer conhecer, que quer tocar, que quer e insiste. Gente que fica meses na fila esperando por um passeio e o jardim às vezes esgotado, mas também se sente importante.

Pobre jardim. Sempre esquece que não é ninguém. Diante de tanta insistência abre os portões, e quando o visitante quer plantar uma semente, o jardim olha em volta e pensa “mas que diabos uma sementinha pode fazer de ruim?! Já passei por tanto incêndio, tenho tantos espinhos. Já tive tantas visitas. Pode plantar, eu dou conta!”. E aí o estrago está feito.

Tem gente que planta emoções como se o que vai crescer dali fosse completamente controlável e esquece que, em alguns jardins, afeto é pior do que erva daninha: depois que toma conta de tudo, não adianta arrancar. Tem que puxar pela raiz, várias e várias vezes. Ainda assim é capaz de continuar esquecido em um canto, soterrado, mas vivo. Aí invés de ocupar o canteiro central, cresce embaixo de um balanço, onde só os cachorros prestam atenção. Até que venha o próximo incêndio. Às vezes, quando quase tudo queima, a velha erva daninha, insistente, quer retomar seu antigo lugar de glória.

O que são as ervas daninhas se não as plantas mais insistentes? E por que será que os insistentes são daninhos? O jardim achava que aquela insitência toda cansava sua beleza. Tem coisas na vida que não adianta querer forçar, ou brota ou não brota. O problema é que depois de tanto esforço para nascer, às vezes as pessoas que iam até o jardim não sabiam o que fazer com aquilo que plantavam. Olhavam em volta e diziam “eu sei, fui eu que plantei, mas eu não sei se colho e coloco num vaso, se é de comer, se eu colho e levo para a fruteira de casa, mas e se for tóxico?”. O jardim olhava o desespero desse visitante e se lembrava de tudo que ele tinha feito para arar o terreno, do quanto tinha insistido em plantar uma ida ao cinema. E ali estava ele, jovem demais para ser gente.

O jardim olha em volta e pensa que devia ser menos atraente. Não que ele não queira se sentir bem, nem que não goste das suas flores, mas será que precisava atrair tanta gente? O jardim só queria ficar em paz. Que dessem um descanso para a terra. Chega de plantar, chega de colher.

As pessoas precisam entender que ali, naquele jardim, bate um coração.

[Foto: Lali Masriera]


Sobre o Autor

Jornalista. Viciada em seriados e cinema, acredita que a vida está nos detalhes e que Cazuza escreveu Exagerado para ela. Não decidiu ainda se o amor a gente inventa, mas com certeza é uma metamorfose ambulante.



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