Descomplicadas birosca2

Publicado em setembro 29th, 2010 | por Revista Naipe

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BODEGA, BIROSCA

Ser mulher é passar vontade. Passar vontade de dar, por exemplo, porque tem de se fazer de difícil e lhe dar o respeito.

Longe disso, essa não é minha realidade. Meu problema é simples, nem por isso fácil de superar, porque não depende só de mim. Eu simplesmente queria poder entrar em bares que só os homens frequentam. Pensar isso a partir de uma cidade grande pode parecer lamúria e mariquices da minha parte, afinal, entrar sozinha numa bodega em que só estão homens, no centro de Florianópolis, por exemplo, não causará impacto para além de olhares (alguns de cabo a rabo, mas ok). E numa cidadezinha, onde normalmente a mulher é vista com quase século de defasagem, o que aconteceria?

Ainda não tive coragem de experimentar. Passei por vários botecos de cenários tentadores aqui na tri-fronteira, frequentados ou somente por homens ou por homens e putas, e não entrei. Os lugares eram realmente tentadores. Há uma avenida em Dionísio Cerqueira que parece concentrar os “bar e cancha de bocha”. Vi três que me fizeram diminuir o passo para apreciar de longe. O maior deles, um galpão de tijolinhos desbotados, me chamou a atenção pelo barulho das bolas e me fez mudar de rua para que conseguisse enxergar dentro. Lugar escuro, com muitas canchas e mesas de madeira, quadradinhas, como as dos filmes de faroeste.

Nesses “bar e cancha”, só homens. Homens e putas, eu vi numa birosca sem nome na avenida do comércio, bem no centro da cidade. Era pequeno, retangular, com cara de boite de beira de estrada, portas e janelas abertas para a calçada, cortinas vinho ao vento. Outro, em Bernardo de Irigoyen, da categoria “só homens”, tinha mesas e bancos retangulares que formavam uma peça única, de madeira crua, bem clara. Todo contornado com cartazes de Quilmes, era aberto, bem pequenininho e aconchegante aos olhos.

Ainda não tive coragem de experimentar. Passei por vários botecos de cenários tentadores aqui na tri-fronteira, frequentados ou somente por homens ou por homens e putas, e não entrei

É, eu podia ter entrado em qualquer um deles e dito “sou estudante de jornalismo, estou trabalhando” etcétera, o que amenizaria os efeitos do bafo machista que sufoca. Mas não é isso que eu quero. Queria poder entrar no lugar, sentar, pedir uma cerveja, observar e interagir com as pessoas, sendo simplesmente eu, e não “eu, estudante de jornalismo”.

E não importa muito como você se veste, nem como se porta. O fato de usar tênis, bermuda larga até o joelho, camiseta baby look folgada, comprida e sem decote e nada de penduricalhos não vai te livrar da opressão e constrangimentos. Resumindo, se tens um buraco, estás fodida (por quem não queres ser fodida).

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