Descomplicadas Kassandra - Foto André Miranda 1

Publicado em outubro 9th, 2012 | por Milena Moraes

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COISAS DO GÊNERO

[Foto: André Miranda]

No mês passado, estreei um solo teatral em Florianópolis. Um espetáculo que não acontece em um teatro, mas em uma casa de diversão adulta.

Afora o local onde toda a ação se passa – a personagem apresenta-se como uma artista da própria boate e conta sua história aos clientes – há outros aspectos da montagem que por si só chamam a atenção de algumas pessoas: a personagem é transexual, é inspirada em um mito grego e o espetáculo é todo executado em um inglês tosco, de sobrevivência, próprio de imigrantes que têm que se comunicar em idiomas que não são seus.

Fato é que quando começou a divulgação nas redes sociais, a impressão era que as pessoas só enxergavam o local da apresentação, mesmo que no flyer constassem informações sobre autor do texto, direção, atriz, site e tudo o mais. Isso não foi exatamente uma surpresa, já que o Bokarra Club é a mais tradicional casa do gênero na cidade, e a priori todos sabem o que irão encontrar lá. O que parece espantar ou seduzir a maior parte do público é a possibilidade de haver outro tipo de programação no lugar. Não importa a mitologia grega, e sim a mítica ao redor do espaço erótico. Ao verem o nome da casa no material de divulgação as pessoas ficam desconcertadas, positiva ou negativamente.

Todas as que se sentiram aviltadas por acreditarem que se tratava da divulgação de um show de strip-tease são do sexo feminino. E, acreditem, não chegam aos 40 anos de idade

Dentre os remetentes dos e-mails solicitando reserva para a temporada de estreia, havia casais sugerindo algo mais, homens solitários convidando a personagem para um jantar romântico, grupos de amigas excitadíssimas para finalmente entrarem no local. Muitos veem a oportunidade de conhecer a casa noturna – por sinal, lindíssima e com ótimo atendimento, o que sabemos não ser comum em Florianópolis – sem sofrer julgamentos.

A surpresa das pessoas era esperada, não espantou o estranhamento. O que espantou foi a agressividade. Algumas pessoas questionavam amigos no Facebook por “estarem difundindo a prostituição” ao compartilhar o flyer. Outras diziam que “o governo estava financiando a indústria pornográfica”, já que a montagem foi contemplada com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz. Ao serem informadas pelo autor do post sobre o que se tratava aquela divulgação, inclusive orientadas a entrar no site e conhecer o projeto, insistiam com comentários machistas e tão anacrônicos quanto um Cro-Magnon usando um smartphone. Algumas pediram para sair do mailing list da produtora porque não queriam receber “ESSE TIPO DE DIVULGAÇÃO”. Assim mesmo, em CAIXA ALTA.

Um detalhe: todos os indivíduos nas situações acima são mulheres. Todas as que se sentiram aviltadas por acreditarem que se tratava da divulgação de um show de strip-tease são do sexo feminino. E, acreditem, não chegam aos 40 anos de idade.

O que faz uma mulher se ofender tanto com uma divulgação e “desferir” comentários sem ao menos saber do que se trata? Talvez a já conhecida competição feminina, considerada cultural e, a meu ver, na maioria das vezes nada sadia. Essa disputa cruel entre as mulheres, que quanto mais cruel mais deflagra uma insegurança absurda. Essa que as faz sentirem-se ameaçadas por uma revista Playboy e coisas do gênero. Do gênero feminino, será?

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Sobre o Autor

Atriz, produtora e sócia da La Vaca Productora de Arte. É drama queen por natureza (imaginem quando for mãe) e vai da comédia à tragédia em segundos, "na arte e na vida".



One Response to COISAS DO GÊNERO

  1. Concordo plenamente, competição feminina!

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