Descomplicadas saudade_acucar_afeto_dentro

Publicado em fevereiro 23rd, 2012 | por Maíla Diamante

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COM SAUDADE, AÇÚCAR E AFETO

Psicólogo fala em elaborar luto; pai-de-santo nos esfrega arruda pra livrar-nos de encosto.

“Já passou, minha filha, entrega a memória pra zeus e preenche de caso novo!”. Pois somos feitos de marcas que nos enfeitam, e que não nos digam para esquecermos aquilo que somos. Amigo que foi morar na Tailândia pra não voltar, amante que arrumou uma vice e a premiou com o primeiro lugar no pódio, ente querido que deixou imóvel para sempre a cadeira de balanço que preenchia na sala. São essas saudades digestíveis e nostalgias incuráveis que nos fazem menos insossos.

Filho que nunca viu sorriso do pai mas guarda a ideia consigo; pai que vive todos os dias o primeiro choro do filho. Mães, avós que moram em cidades ou memórias distantes, e já não estão para dar nem colo nem bala – mas o gosto doce de colo não desmancha nunca na boca. E os romances acalorados que se mantêm por fio ou wireless, enquanto outros presenciais estão a um fio de cair em ressentimento? Disse o avô, quando ouviu falar desse tal de Facebook – o que está longe nunca esteve tão perto.

Tem amigo que está a mil, dez mil quilômetros de distância, e num “oi” telefônico seguem tão ou mais amigos de que quando tomavam uma cerveja conosco no boteco da esquina. Tempo e distância não definem quem seguirá tatuado na memória. Dois dias de identificação com alguém querido marcam a ferro e fogo igual anos de convívio, mas a saudade queima igual depois do primeiro minuto de ausência. A cada despedida, um calo novo – e ai de nós sem os calos nessa nossa caminhada em braseiros. O aperto por uma amizade distante é aquele post-it colado na geladeira, lembrando que afeto passado é estofo do presente.

O melhor de nós mesmos também foge, mas nunca nos abandona. Infância que foi volta no vai-e-vem do bom humor. Até que o mundo, pai rancoroso, lhe dá uma bronca e a coloca nos eixos

O melhor de nós mesmos também foge, mas nunca nos abandona. Infância que foi volta no vai-e-vem do bom humor, rodopia conceitos e preconceitos, pinta o sete e se sente em casa. Até que o mundo, pai rancoroso, lhe dá uma bronca e a coloca nos eixos. A criança se ofende, vai embora, volta a viver num útero isolado – mas segue nutrida de cada “bom dia” e “desculpa” que deixamos escorregar entre descuidos do dia-a-dia. E, saudável que é, faz questão de voltar no primeiro encontro entre amigos, passeio no parque ou visita ao sobrinho de cinco anos. Não tem mundo moderno que consiga cortar o cordão umbilical que nos liga a esse abraço descompromissado na vida.

Uma pitada de rancor amargo, umas gotas de ofensa azeda? Pois que venham. Não conheço boa culinária que se faça só de açúcar, nem nada mais natural que servir-se de doce e ácido no mesmo prato. Um velho chinês dizia que equilíbrio é nutrir-se de cada relação que nos aparece, das intragáveis às mais saborosas. São elas que nos manterão em pé quando bambeamos – seja quando batem a nossa porta sem esperarmos, seja durante uma lembrança que nos invade num domingo à tarde. Até hoje, seguir a máxima do velho nunca me desceu indigesto.

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Sobre o Autor

Estudante da UFSC e cozinheira amadora. Abandonou o diploma de filosofia empoeirando na gaveta e ainda não sabe onde deixará o futuro diploma de jornalismo.



One Response to COM SAUDADE, AÇÚCAR E AFETO

  1. mariana says:

    caiu como uma balinha de mel feita pela vó para quem está planejando uma viagem sem data pra acabar. e que o amores de anos a fio sobrevivam via wireless! :]

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