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Publicado em setembro 9th, 2012 | por Revista Naipe

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COM VELUDO E SEM MALÍCIA

[Por Nina Wolf]

Eu tava carente, com vontade de contato, ela se ofereceu e eu não tava em condições de recusar. Eu tava na fossa, ruminando uma rejeição que nem sabia ser real ou imaginária. Desafoguei a mágoa naqueles braços frágeis, recebendo afagos daquela mãozinha magra, daqueles dedinhos de esqueleto.

Eu precisava de afeto e ele veio jorrando, abundante, sem miséria.

Ela era linda e eu não sabia se sentia atração ou inveja, se entrelaçava meus dedos nos cabelos dela ou perguntava como faz pra ter um corte igual. Era um misto de encanto e estranhamento, como pode, uma cintura que você envolve com um braço só, um pescoço com cheirinho de flor, não de loção pós-barba, uma boca tão pequena e delicada que eu nem sabia lidar.

Ela me ensinou a abraçar “do jeito certo”, com os corações se beijando, um de focinho pro outro. Ela me ofereceu um seio macio como leito, tão diferente de um peito másculo, com pêlos cosquilhando minhas narinas. Ela me deu colo, ela me ninou, ela invocou o sono como só quem tem vocação pra mãe sabe fazer. Adormeci segura, envolvida por alguém que pesa menos do que eu.

Embalada num marsúpio de cuidado, vi que carinho, afeto, não tem gênero, não tem sexo. É só um ser humano querendo se doar pro outro, dar conforto, dar ternura, comprazer, e isso basta. Não precisa de nome, julgamento, definição. Foi um escambo de solidões, trocamos carências, intercambiamos vazios, nos preenchemos assim. Vi que mulher ama sem medo, mergulha de ponta, se entrega bem mais.

Não precisa de nome, julgamento, definição. Foi um escambo de solidões, trocamos carências, intercambiamos vazios. Vi que mulher ama sem medo, mergulha de ponta, se entrega bem mais

Foi tudo tão de leve, tão macio, mãozinhas sapecas se aventurando por baixo da minha blusa, cílios marotos roçando nos meus, brincando de beijo borboleta. Senti respeito. Nenhuma forçação de barra, nenhum desconforto, nada, nada. Só aconchego, amor gratuito, tudo com uma aura de pureza, de inocência, até a linguinha atrevida fazendo acrobacias na minha boca.

A gente não transou, mas imagino como seria. Nunca transei com mulher, mas imagino como deve ser. Acho que não ia ter “não faz assim”, “tá machucando”, “tira o dedo daí”, “vai com mais calma”, “devagar”, “ainda não”, como eu disse pra tantos. Transar com mulher deve ser mais meigo, mais cômodo, menos dolorido.

Senti uma maior gentileza com a minha sensibilidade porque a dela era igual. É a mesma forma de sentir, são os mesmos hormônios, as mesmas necessidades, as mesmas inquietações, as mesmas rejeições imaginárias. Porque não tem útero, não tem intuição feminina, não tem instinto materno, o homem não compreende a irresistível massa de contradições que é a mulher. Só que o não-entendimento tem lá sua graça, o obscuro é cheio de charme. Sobretudo pra mim.

Eu prefiro o áspero, o corpo pesado oprimindo o meu, os dedos rudes que nunca sabem imprimir a pressão adequada, a barba mal feita ralando a minha cara. Eu preciso do escapismo do masculino, do cheiro forte do suor, da testosterona tempestuosa esmagando minha passividade, da virilidade agressiva arrasando minha insegurança.

Mas, naquela noite, eu só precisava dela. Dormi serena, tranqüila e emocionada, com os olhos cheios d’água, como jamais dormi nos braços de nenhum homem.

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