Descomplicadas 30102011b

Publicado em agosto 31st, 2012 | por Maíla Diamante

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DESCONHECIDOS ÍNTIMOS

Ato um, cena um, ação.

A sincronia foi olímpica: ela respingou a saia com molho madeira na mesa um; ele encheu a barba por fazer de farelos de croissant na mesa dois. O “garçom, um guardanapo, por favor?” saiu em coro, e o pedido chegou um minuto depois. Enquanto os dois se fitam pela primeira vez, a mão de um cupido fanfarrão empurra a janela do restaurante. Entreaberta, ela faz os guardanapos rodopiarem uma dança do acasalamento pelo ar, com direito a jogos de sedução embalados pelo vento, até completarem o balé num grand finale, repousando um sobre o outro.

Cena dois: aproveitando a inegável oportunidade do acaso, ele pega os dois guardanapos bailarinos, desenha um rostinho feliz e a presenteia com um deles, limpa a barra da saia dela com o outro, paga a conta no balcão e se despede. Risadas amarelas e farelos passam despercebidos, fica a sensação de tempo dilatado. Cortinas se fecham e voilà! Uma salva de palmas para mais uma passagem de Desconhecidos Íntimos, essa peça cotidiana onde não precisamos nem saber o nome de alguém nunca visto antes para nos confortarmos com sua presença.

Cortinas se fecham e voilà! Uma salva de palmas para mais uma passagem de Desconhecidos Íntimos, essa peça cotidiana onde não precisamos nem saber o nome de alguém nunca visto antes para nos confortarmos com sua presença.

Para bom entendedor, meia atitude basta. Quando o dia nasce feliz, uma curvatura mais expressiva de sobrancelha, uma covinha marcada no rosto e até uma pisadela em falso ressoam na memória mais que uma noite de núpcias. Quando o cosmo conflui, um primeiro rabisco de identificação faz as vezes de uma obra-prima da afinidade. Um desconhecido íntimo pode ser mais relevante que um parceiro rotineiro, da mesma forma que o bafo de um bom dia não acelera a pulsação como o primeiro oi de um anônimo desejado.

Ato dois, cena um, ação. “Hello, I love you, won’t you tell me your name?” era a declaração de Jim Morrison nos autofalantes do carro dela. Sinal fechado, um sorriso rasgado feito um convite na janela do veículo ao lado, e aquela impressão te-conheço-de-algum-lugar. O sinal aberto é ignorado pelos dois carros emparelhados, e uma encarada se estende até que os dois se esqueçam pra onde iam. “Hello, I love you, let me jump in your game.” Para acabar com o jogo, sempre soa ressentida a primeira buzinada para calar Jim Morrison, cupidos e o cosmo.

Não é todo dia que farelos na barba passam despercebidos, vento na janela de restaurante serve para algo além de esfriar a comida, ou que o motorista do carro vizinho te presenteia com um sorriso em vez de uma cutucada no nariz. Bafos podem vir desacompanhados de bons-dias, covinhas geralmente se manifestam em celulites e não harmonizando bochechas. Jim Morrison já morreu e cupidos viraram narcisos. Mas se não fosse toda essa ressaca à lá segunda-feira que nos consome durante os dias úteis, os irrefreáveis sábados não seriam tão desejados.

Seguindo a máxima do beija-flor, os deliciosos desconhecidos íntimos cruzam nossos caminhos com a duração de algodão-doce sumindo no céu da boca.

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Sobre o Autor

Estudante da UFSC e cozinheira amadora. Abandonou o diploma de filosofia empoeirando na gaveta e ainda não sabe onde deixará o futuro diploma de jornalismo.



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