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Publicado em março 8th, 2012 | por Revista Naipe

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DESCONTÍNUOS E PROMÍSCUOS

[Daniela Cucolicchio]
A agonia de ter de escrever, mas não ter vontade de dizer. Agonia de até ter o que dizer, mas calar.

E ir cozinhar, e ir observar, aprovar, desaprovar, calar e deixar pra lá. Começar e não acabar. Botar reticências na fala, engolir descaradamente as frases, como se estivesse chapada. Abandonar textos no primeiro parágrafo. Pensar em dizer, quase dizer, e desdizer o ato. Dar de ombros, sem nem se mexer. Não querer falar nem sobre o não dizer: antes da décima frase, já ter abandonado algumas vezes a caneta (sim, elas ainda existem) e quase cochilado. Vontade de riscar as parcas linhas escritas em muitos, muitos minutos (que, se não foram, parecem), e carimbar “autocensura” ou “não continua”. Dormir (foi uma noite de sono insone; antes da seis, sem despertador, estava de pé).

Voltar (agora empurrando o cursor). Vontade de falar sobre o Carnaval, beijos a três de três corpos pintados com tinta guache, sob a marchinha da Alcova (Libertina) na praça de Santa Tereza (Santê, pros íntimos), bairro boêmio de BH, outros beijos a três, tão bonitos, no bar do seu Orlando, mesmo bairro. Vontade de deixar tudo entre parênteses. “Ó, Libertinos, façam de mim um eterno Carnaval.”

Vontade de falar sobre a Pedalada Pelada, marcada pra sábado (em Floripa, sai às 19h, da pista de skate em frente ao Iguatemi; vá tão nu quanto ousar), sobre pedalar, sobre como os quadrúpedes de quatro rodas têm me deixado triste e possessa, por desconhecerem leis básicas de trânsito, sobre como fiquei com o queixo roxo, quase preto, e a bike avacalhada por causa de um imbecil que não tem noção de preferencial. E, apesar disso, continuar pedalando feliz, sorriso leve nos lábios, pensamentos ao vento… bicicleta é algo mágico.

Querer falar sobre o meu novo companheiro, que, desde agosto passado, conhece bem meu buraco mais íntimo: um coletor menstrual lindo, de silicone cirúrgico, um sininho invertido que coleta o sangue com o maior carinho e dura uns dois anos. Adeus absorventes e tampões nojentos… (Sim, isso continua em breve, guardem as perguntas).

Vontade de contar sobre a despedida de Floripa, a volta temporária para a cidadezinha-inha do interior paulista, os planos desplanejados, a necessidade de botar a vida em dia, necessidade do ócio, de não trabalhar oito horas todo dia e todo dia. Ficar olhando para o que não acontece, para o silêncio, para as páginas de um livro, para a folha que cai. Vontade de solidão e companhia, de aquietar o coração que não se aquieta com qualquer pessoa. Vontade de parar de escrever. E deixar tudo assim, meio bagunçado, como minh’alma, nestes tempos mais.


Sobre o Autor



2 Responses to DESCONTÍNUOS E PROMÍSCUOS

  1. Priscila says:

    Como é que funciona esse coletor menstrual. Parece interessante…

  2. Flávia Schiochet says:

    Considere-se abraçada, Dani.

    Beijo grande.

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