Descomplicadas

Publicado em maio 29th, 2014 | por Roberta Ávila

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DIÁLOGO INTERNO

Na minha cabeça a gente conversa o tempo todo. Toda hora. O dia inteiro mesmo.

Eu te conto um monte de coisa que você não sabe. Gosto de ser original. Te conto um monte de coisas pessoais. Tudo que eu sei sobre a minha família, eu falo para você. Te conto a história dos meus pais, como eles se conheceram, quem eles são. Eu conheço bem meus pais e eles têm histórias de vida que parecem coisa de novela Mas eu não queria ver uma novela sobre a gente não, só quero contar para você.

Quero contar para você do meu primeiro amor. E do segundo. Com detalhes, mas não muitos, que é para você não ficar pensando que eles ainda têm importância. Eu não quero te deixar com ciúme não, bobo. Quero te dar isso de saber de mim. Eu que nunca respondo perguntas. Eu que, se não quiser, não conto e não disfarço.

Mas eu te conto e também te pergunto. Eu quero saber das suas histórias. Eu quero um tijolo a menos nesse muro que você colocou no meio de nós dois. Eu quero te mostrar como se conta para você aprender a me contar. Eu quero dar um passo a mais em direção ao precipício, para ver se te dá coragem de pular.

Mas essa conversa a gente já teve. Já falamos do passado. Dele todo. Tudo que eu sei de mim e dos outros e mais alguma coisa que eu inventei num dia em que eu não tinha muita coisa para fazer e acabei acreditando sem querer.

Eu quero dar um passo a mais em direção ao precipício, para ver se te dá coragem de pular.

Às vezes, a gente conversa sobre o futuro Na minha cabeça. (Só na minha cabeça.) Eu não tenho muito planos, mas tenho um sonho ou dois. Sonhos de outros países. De outras profissões. De outra vida, no fim das contas. E às vezes eu estou num dia mais ousado e te conto desses meus planos. Te digo que tem lugar neles para você. Quando eu estou quase louca eu te digo que, na verdade, eu só quero esses planos se tiver você neles. Mas depois eu nego. Nego tudo. Não se preocupa, não! É brincadeira. Bobagem dessa minha cabeça que não para quieta…

Tem gente que acha que eu não devia ficar aqui conversando com você. E aí vem uma pessoa qualquer e tenta colocar na minha cabeça essa ideia tola de que ele, sim, é que é o cara. Mas eu nem ligo. Uma pessoa qualquer é só uma pessoa qualquer, não é você. Quando alguém tenta enfiar uma ideia na minha cabeça e eu percebo, é como se enfiassem uma minhoca pelo meu nariz e achassem que eu não ia ver. Dói na hora, mas depois passa. Tentam enfiar minhocas na minha cabeça enquanto eu penso em você.

Sabe, eu converso tanto com você, que de vez em quando meu cérebro dá uma pausa. É cansativo pensar pergunta e resposta e pergunta e comentário e risadas e olhares. E aí quando vem essa pausa, e ela sempre vem, eu me pego pensando: por que é mesmo que a gente não conversa?

[Foto: Stefano Corso]

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Sobre o Autor

Jornalista. Viciada em seriados e cinema, acredita que a vida está nos detalhes e que Cazuza escreveu Exagerado para ela. Não decidiu ainda se o amor a gente inventa, mas com certeza é uma metamorfose ambulante.



One Response to DIÁLOGO INTERNO

  1. Marcelo says:

    Muito bom!!!
    ;)

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