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Publicado em fevereiro 15th, 2011 | por Revista Naipe

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DO OUTRO LADO

Cisne Negro nos telões do pub. Eu, alegrinha, alegrinha, remexia o quadril comentando com a amiga como o Vincent Cassel está tesudo no filme, fazendo Thomas Leroy.

“Ah, mas ele é tão feio!”. Eu não falava de beleza, mas de virilidade, poder, macho que se impõe, ai que delícia. No ambiente, tudo era inspirador, a música, a decoração e os frequentadores, e eu, meio high, fui ficando louca para fazer uma loucurinha.

Em volta, caras se pegando despudoradamente e meia dúzia de goiabas. É, a noite pedia uma fuga de padrões. Minha mente alcoolizada navegava pela pista sem porto para atracar, sem sarna para se coçar. Bêbada demais para frustrações, continuei dançando, feliz da vida, pensando em outra forma de mini transgredir. Revelei minhas intenções a um amigo e ele sugeriu um alvo. Acertou em cheio.

Estonteante, inegável. Seu exotismo chamava tanta atenção que todos à volta se ocupavam de admirá-la. Uma pele branca e uns traços finos, uma delicadeza de bailarina e sapatos ingênuos de boneca. Magra e bela, poderia até transmitir fragilidade, não houvesse cuidado muito bem deste detalhe. Traje negro e maquiagem agressiva, sua figura se afirmava, impactava, tinha presença. A renda do vestido era inofensiva, mas a transparência provocava. Um cabelo curto de pretume intenso, um repicado de penas alvoroçadas. Mulher alva travestida de negror, ela era contraste, dualidade, yin-yang. Odette e Odile, naïf e sensual, virginal e berlusconiana: ela era cisne cinza.

E aí, vou ou não vou? Minhas experiências bissexuais se limitavam a selinhos em amigas e brincadeiras de passar gelo via boca, mas só pra atiçar os meninos, puro teatrinho e nenhum tesão. Ela percebeu meu interesse, mas a maldita se comportava exatamente igual a mim na balada, fazendo a Cleópatra e se recusando a dar um único sinal de encorajamento. O que serviu de incentivo foram as pessoas, ambos os sexos, que murmuravam não ter colhões para ir até ela. Mas só me mexi depois de seu olhar de três segundos de duração, perfurocortante, direto nos olhos meus.

Vamos nos pegar?

A perder eu tinha nada, e tava que tava me achando, culpa do saltão de drag e da dose de pisco. Fui abrindo espaço entre os embasbacados, com licença, com licença, tenho um negócio a cuidar, um assunto a tratar, cheguei.

Cheguei e mandei a pior possível: “Tu curte mulher?”. O fato é que ela só curtia, e pelo jeito tinha gostado de mim, porque a conversa rolou fácil, eu marcava um ponto atrás do outro. Adorei tua roupa, bingo! Mais tarde ela disse ser estilista. Nunca fiquei com mulher, bingo! Oito anos mais velha, sentiu-se tentada a me iniciar. Acertei até ao responder qual era meu signo, o mesmo que o dela. Ai, que legal, nós duas criativas, divertidas e desapegadas, vamos nos pegar?

Tava que tava me achando, culpa do saltão de drag e da dose de pisco. Fui abrindo espaço entre os embasbacados, com licença, com licença, tenho um negócio a cuidar, um assunto a tratar, cheguei

Nem foi tão diferente assim, não éramos gêmeas só no zodíaco. Seios pequenos, pescoço fino, pulso fino e cintura fina, disso tudo compartilhávamos. No final das contas, não foi um descobrir o outro, foi um me encontrar. Tirando barbas que arranham e pegadas que intimidam, o resto é tudo igual. Beijo é tudo igual, lábio, boca, saliva, é bom do mesmo jeito. Diferente é estar do outro lado. O lado ativo, que tem que pensar rápido, elogiar, arrancar sorrisos e risadas, o lado que escolhe o que vai dizer e tenta impressionar. É mesmo muito cômodo ficar paradinha, só passiva, só recebendo as investidas. Muito bom sair do conforto do quarto cor-de-rosa e ser um pouco Thomas Leroy.

E foi mais gostosa ainda a sensação de ser o mais infantil dos canalhas, morrer de orgulho da minha conquista, querer desfilar com ela pelo bar, exibindo meu troféu, ai que nojo de mim. Pena que ela teve que ir, partiu voando, plumas negras e paetês, após três beijos apenas. Não sem antes me passar seu telefone. Bingo!

Na minha cabecinha sacana, gosto de pensar que durante nosso balé de línguas os telões exibiam as cenas lésbicas do filme, Natalie Portman e Mila Kunis se engalfinhando, sedentas e desesperadas. Mas não, teria sido perfeição de timing, coisa de Hollywood.

Deixei a pista de dança escoltada pela incredulidade de conhecidos e ao som de “Mandou bem”, “Coisa linda”, “Vou sonhar com vocês duas”, entre outros dizeres menos apropriados. Manhã seguinte: cara inchada, estômago torcido e uma dor de cabeça lancinante. Abro a porta do quarto e a amiga dispara:

– Ressaca moral?

Que nada. E no que ela desenterrou aquele refrão da Katy Perry, eu finalizei com a boca cheia: and I liked it!

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4 Responses to DO OUTRO LADO

  1. santiago says:

    quebrar tabus é o único caminho para evoluir, mandou bem!

  2. Milena Moraes says:

    Ai, também quis!

  3. Carolina Dantas says:

    “mini transgredir” é tendência. Arrasou, blogueira.

  4. Maíla says:

    Entre mini transgressores e berlusconianos, uma bela experiência de fuga de papeis. Mandou bem, Nina Wolf! ;)

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