Descomplicadas elasnaousamsalto

Publicado em abril 25th, 2011 | por Débora Rosseto

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ELAS NÃO USAM SALTO ALTO

Em uma daquelas confluências absurdas de eventos e pensamentos que acontece com todo mundo (acontece sim, não sou louca), o salto alto se colocou para mim e em mim.

Eu fui pra “balada” essa semana, sabe – que falta sinto do tempo em que não se falava “balada” – e fiz o meu papel: vestido e salto alto, lápis no olho e rímel. Tá, fiz o melhor que eu posso, porque não suporto a idéia de me arrumar muito mais do que isso. Não suporto a idéia de perder o tempo que se perde com isso (ou eu que não sei fazer direito?). É, talvez eu não suporte a minha falta de talento pra coisa. Será que se eu soubesse fazer cabelos e maquiagem lindos e elaborados, eu faria? Ou, será que se meu cabelo e minha pele fossem piores, eu cuidaria mais deles – e, sendo mais baixinha, usaria mais saltos altos (ou saltos mais altos)?

Perguntas inúteis: as coisas são como são. Mas são assim porque se tornaram assim. A gente é como é e ainda assim muda o tempo todo. Encontrei – assim, sem querer –  uma declaração minha de dois ou três anos atrás em que afirmava (como eu era mais firme, antes! – em todos os sentidos): “Não uso salto, nem roupa justa”. O que aconteceu no meio do caminho?

Ainda fico embasbacada quando vejo uma mulher (quisera eu ver homens) de salto por aí, nas calçadas acidentadas do centro, pra lá e pra cá, o dia inteiro, ploc ploc

É claro que eu me lembro de achar salto alto a coisa mais desconfortável do mundo – e lembro porque continuo achando –, e continuo não usando assim, de dia, à toa. Ainda fico embasbacada quando vejo uma mulher (quisera eu ver homens) de salto por aí, nas calçadas acidentadas do centro, pra lá e pra cá, o dia inteiro, ploc ploc. Ainda acho que poucas coisas são tão deselegantes quanto alguém “não segurar o salto”, como se diz. Você vê a pessoa andando toda torta, fora de compasso, e aquilo chama mais atenção do que qualquer outra coisa.

É claro que eu sei muitas coisas sobre o salto – na verdade, uma só: ele fetichiza a mulher. Isso resume todo aquele blablablá sobre melhorar a postura, alongar a silhueta, tornear a perna, atrair os olhares masculinos, enfim. Todo aquele texto de revista feminina que eu não compro (não compro o texto, só a revista – não, não sou louca). Sei também que, por essas e outras, muitas mulheres (entre elas, uma das mulheres que um dia eu fui) os odeiam e os vêem como instrumentos de repressão feminina – inclusive prejudicando a mobilidade (também em todos os sentidos) da mulher.

Mas o que acontece hoje? Hoje, eu sou mãe. Hoje, ir pra “balada” é um evento especial na minha vida, que envolve muita preparação (aciona-se a vovó, prepara-se uma pequena – enorme! – mala para a pequena, pensa-se na melhor logística para a coisa toda). É, assim, um acontecimento – e, por ser um acontecimento, sinto necessidade de demarcar uma diferença. De me sentir diferente. E isso o salto alto me dá.

Ah, sim, me dá: me sinto uma girafa que não sabe dançar. Esse foi o evento que originou tudo isso: eu, na “balada”, pensando comigo mesma o que estava eu fazendo na “balada” e de salto alto. Acho que o problema, na verdade, está na “balada”. É isso: no tempo em que não íamos pra “balada”, não usávamos salto alto. Era um tempo em que nem propriamente saíamos, pois estávamos sempre “fora”: fora de casa, fora de controle, fora do nosso papel.

Éramos jovens. Éramos um tipo muito especial de jovem. Que falta sinto do tempo em que não íamos pra “balada” nem usávamos salto alto. Ao menos, eu continuo não penteando o cabelo.

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Sobre o Autor

Faz de um pouco, tudo e sonha com um mundo no qual possa existir por escrito.



3 Responses to ELAS NÃO USAM SALTO ALTO

  1. Milena Moraes says:

    Já fui de odiar salto (quando sequer sabia a diferença de delineador e rímel), depois de adorar (tempos em que era obrigada a usá-los por trabalhar em empresa aérea), e hoje… Amo usar nos shows, nos figurinos, na night (acho que dizer night é mais velho que balada… Mas como não sou ninguém na night…). Já fui de usar até chinelo de salto, mas com o tempo a gente aprende a primar pelo confortável e escolher melhor os momentos “de los tacones”…

  2. Luisa says:

    Arrasou, gata (a overdose de parênteses lembra Fernando Sabino)

  3. Gustavo says:

    apesar de ser macho, gostei do seu texto, desse saudosismo referente a tempos passados…

    a ilustração p/ a matéria ficou mto boa também.

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