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Publicado em julho 8th, 2010 | por Revista Naipe

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A NÃO-MORTE DE SARAMAGO

[Por Salma Ferraz, especial para o Descomplicadas]

Ao chegar da UFSC, 18 de junho, fui informada por um telefonema que José Saramago havia falecido.

Triste, olhei o exemplar do Dicionário de personagens da obra de José Saramago, obra na qual tenho trabalhado há vinte anos e que terminei na semana passada. Termino o Dicionário, Saramago morre… O ano de 2010 será conhecido como o ano da sua morte.

Fiquei alguns minutos pensando em nosso encontro no Rio de Janeiro, em Petrópolis, há uma década. Ele iria receber o título de Doutor honoris causa pela Universidade Federal Fluminense. Na véspera do laureamento, surpreendeu a todos com uma das suas peripécias. Ele daria uma palestra exatamente às 21h, mas o palestrante que o precedeu falou inconvenientemente até às 22h. Na hora de sua fala, com o salão lotado, o mestre pegou o microfone e disse: “Não deixaram tempo para que o Nobel de Literatura falasse. Dou por encerrada a sessão”. Eis o Saramago verdadeiro. E pobre daquele palestrante anterior: passou para os anais da literatura como o homem que não deixou Saramago falar.

No outro dia, saiu antes do evento e abanava com as mãos para pegar um táxi. Quando o táxi se aproximava, vi um senhor ofegante correndo dos fotógrafos que o assediavam: era o escritor fugindo dos paparazzi. Abri a porta e lhe ofereci o táxi. Ele disse: “A senhorinha primeiro”, e eu, “O senhor primeiro”. Os fotógrafos desesperados se aproximavam e eu perguntei para qual hotel ele iria. Felizmente iria para o mesmo hotel que eu e pegamos o táxi juntos. Eis o Saramago gentleman.

Pedi ao taxista que dirigisse devagar porque carregava um dos maiores cérebros da atualidade. Diante da incompreensão do homem, Saramago riu. Quando lhe dei meus dois livros escritos sobre sua obra ele comentou: “Mas a Senhorinha é tão jovem!”. No outro dia pela manhã, tomamos um café juntos e eu, que fazia regime, comi todos os bolos do mundo, porque aquele homem me fascinava. Depois de décadas estudando o autor, eu tinha ali diante de mim um homem sábio.

Quando o táxi se aproximava, vi um senhor ofegante correndo dos fotógrafos que o assediavam: era Saramago fugindo dos paparazzi. Abri a porta e lhe ofereci o táxi

Que dizer de sua obra magnífica e sobre a qual já foram escritas teses e mais teses? Ele reinventou a escrita, inventou a escrita saramágica, com seus parágrafos enormes e sem pontuação. Criou uma Blimunda que via a alma das pessoas; criou um Caim que, viajante no tempo do Velho Testamento, questiona a justiça de Deus e destrói o mundo matando toda a humanidade na Arca de Noé e assim se vingando por ter sido preterido; criou Madalena, que proferiu uma das frases mais teológicas da sua obra: “Ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer duas vezes” (com esta frase, ela impede que Jesus ressuscite Lázaro). Redimiu Madalena consagrando-a como a discípula amada, transformou o Diabo numa espécie de terceiro homem da Trindade, redimiu Judas. Eis o Saramago ateu declarado, mas apaixonado pela Bíblia e seus personagens. Para ele, Jesus era a chave para o humano e não para o divino.

Qual era a sua religião? Sua religião, sua crença maior chamava-se HOMEM. Filósofo e defensor do Antropocêntrico, afirmava em um de seus romances: “Que os homens são anjos nascidos sem asas, é o que há de mais bonito, nascer sem asas e fazê-las crescer”. Nas palavras do escritor e meu amigo Maicon Tenfen: Humanizou deus (com minúscula mesmo) e divinizou o Homem (com maiúscula). Sua vida: família pobre, avó criador de porcos, pais humildes, mãe faxineira e pai analfabeto. Seu estudo, só até a escola técnica. Seu sonho frustrado: ter miopia e não ter sido maquinista. Seu maior prêmio: Nobel de Literatura, em 1998. Ganhou também o Prêmio Camões, em 1995.

Seus melhores romances: O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, O ano da Morte de Ricardo Reis, Memorial do Convento, Caim. O crítico norte-americano Harold Bloom o conclamou como o maior romancista vivo da atualidade. Saramago foi consagrado pela crítica em vida.

Um desapontamento: a não indicação do seu romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo a um prêmio Literário português. Setores conservadores da Igreja Católica pressionaram e o governo não indicou o livro. Por conta deste fato se exilou em Lanzarote.

Sua maior crítica: o capitalismo. Seu maior desencanto: todas as esquerdas.

O homem mais sábio que conheceu: seu pai, um analfabeto. Um momento emocionante: Saramago chorando no final da exibição do filme Ensaio sobre a cegueira, dirigido por Fernando Meirelles.

Um momento romântico: o abraço em Pilar no aeroporto, quando voltava da premiação do Nobel.

Sua segunda vida: começa exatamente em 1986, quando a jornalista espanhola Pilar del Rio lê uma página de Memorial do Convento numa livraria, se apaixona por Blimunda e resolve entrevistar e conhecer o criador daquela mulher de papel. Tomam o café juntos e a espanhola de carne e osso se apaixona pelo criador de Blimunda. Casam-se um ano depois.  Com 64 anos ele vive sua maior história de amor.

Uma de suas obras que também admiro trata da morte, coisa que para Saramago era natural: a diferença básica entre ser e não ser. O livro Intermitências da morte tem com enredo a estória da Morte que entra em greve. O romance começa assim: “No dia seguinte ninguém morreu”. Se eu pudesse, reescreveria a primeira linha deste romance: “No dia 18 de junho de 2010 ninguém morreu”, mas não posso… O mundo ficará imensamente menor sem o senhor José Saramago (1922-2010).

Saramago não foi somente um escritor de Língua Portuguesa, ele foi escritor do mundo. Viveu e morreu dispensando todos os deuses. Não necessitou deles nem para a vida, nem para a doença, nem para a morte – e foi feliz assim.

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Sobre o Autor



One Response to A NÃO-MORTE DE SARAMAGO

  1. Thuani Stolf says:

    Que lindo isso!
    Que invejinha boa saber que você o conheceu… ´

    Que bom saber que muita gente o admira e o preserva.

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