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Publicado em junho 30th, 2011 | por Revista Naipe

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ERA O QUE FALTAVA EM MIM

[Foto de Daniela Cucolicchio]

O despertador toca às sete.

Apesar do frio e de ter ido deitar quase três da manhã, pulo da cama alvoroçada pelos latidos histéricos dos cães da vizinhança e pelos gemidos vindos da casa ao lado, geminada. No miniquintal, a cachorra, que também foi dormir quase três, me recebe sonolenta, espreguiçando-se, patas pra frente, bunda pra cima. Abro a porta da frente para deixá-la fazer xixi nas pedrinhas, e um céu azul invade a cozinha, junto a uma brisa gélida, que me anima a botar água na velha e fotogênica chaleira para preparar um chá de hortelã. Aquecida, troco de roupa e a levo para uma rápida caminhada matinal. Hora de gastar um pouco da energia canina, que voltará a se acumular durante a manhã solitária. De volta, abasteço o pote de ração e lhe entrego um osso de courinho, pego bicicleta, capacete e luvas e pedalo os próximos 20 minutos rumo ao trabalho.

Contando assim, é como se me fosse um dia qualquer. Não é. É o primeiro de muitos dias bonitos que virão. Cacaua, a vira-lata manezinha que adotei ainda filhote há quase quatro anos, está de volta. Um ano e dois lares meus depois. Nesse tempo, em que morei num apartamento pequeno e numa casa hiperúmida, ela esteve com minha mãe, no interior paulista, a mil quilômetros daqui. Fez tanta falta que, por mais que eu tenha me acostumado com a ausência dela, os dias, por mais cheios que fossem, foram todos incompletos. Por mais que houvesse, não havia motivo para estarmos separadas. Por mais que fizesse, não fazia sentido a distância. Para alguns, pode parecer que me faltam humanos, isso sim. Mas é justamente por ela ser uma cadela e eu a tratar como tal, que ninguém consegue ocupar seu lugar.

Durante o almoço, tive certeza disso tudo. Pedalei de volta pra casa, passando pra pegar comida num restaurante natural. Ela me recebeu contente, sem agitação e sem pular – num cão, euforia ao te ver é energia e ansiedade demais acumuladas, não é felicidade, como pensam muitos; se pular em ti, é pra mostrar dominância, e não alegria. Fiz o prato e me sentei no chão, no pequeno hall de entrada, onde pega sol o dia todo. Ela veio e sentou-se ao lado, sem se aproximar da comida. Pra mim, uma cena comum. Ela só come se autorizada. O que me tocou foi o belo momento criado pela simples presença dela. Eu, no intervalo do trabalho, almoçando ao calmo sol de inverno, sentada no chão de casa, segurando um grande prato de plástico verde. Ao lado, a Cacaua deliciando-se com pedacinhos de hambúrguer de soja com gengibre e abobrinhas amargas. Logo ali nas pedrinhas, na falta de um fotógrafo, minha memória empunhando uma câmera e um sorriso.

Ela me recebeu contente, sem agitação e sem pular – num cão, euforia ao te ver é energia e ansiedade demais acumuladas, não é felicidade, como pensam muitos

Sorriso que carreguei o dia todo. Dia que pareceu ter sido feito pra beleza das minhas pequenas coisas. Ainda durante o almoço, desceu pra mim. Dessa vez, eu não estava de TPM aparente (talvez ter me livrado de todos os medicamentos de uso contínuo, incluindo a pílula, e vir evitando qualquer tipo deles, esteja contribuindo para isso). O que estava leve virou pluma. Como na maioria das vezes, o sangue desceu e trouxe poemas. Trouxe a Cacaua. Cacaua trouxe sangue pulsante, que trouxe vida e vontade. Trouxe novos dias.

Cacaua também levou vida. No tempo em passou com minha mãe, ensinou-lhe muita coisa. Uma delas, a gostar e cuidar de cachorros. Ela que se não interessava por eles, descobriu como amá-los e aproveitar-lhes a companhia. Já até tem uma potencial sucessora quadrúpede, para ser adotada em breve. A presença canina ajuda-a a combater um medo antigo de ladrão, fazendo com que se sinta mais segura em sua própria casa.

Para ir fechando o dia feito por e para as belezas das minhas pequenas coisas cotidianas, ao cair da noite tive o encontro semanal com a psicóloga. Numa frase, queria que todos a tivessem como terapeuta; o mundo seria mais bonito. Saindo de lá, comprei um cachorro-quente vegetariano, passei em casa, deixei a bike e peguei a Cacaua para uma caminhada longa, dessa vez a fim de gastar a energia acumulada durante a tarde solitária e colocá-la em contato com o instinto canino de migração e matilha, mesmo que numa matilha de dois. Antes de voltar, uma passadinha no parquinho da praça para lhe propor desafios psicológicos: andar sobre a ponte móvel de madeira, a tal “ponte do rio que cai” da minha infância, subir e descer pelo escorregador, subir e descer escadas… Mais de uma hora depois, ração pra ela e banho pra mim.

Por fim, sentar e escrever, enquanto a Cacaua, poesia do meu dia, e dias, dorme no miniquintal, quentinha na caixa transportadora que virou casinha temporária, envolvida por papelão e forrada com uma proteção de espuma e um cobertor usados por mim quando bebê. Não sei exatamente por que ela me faz tão bem e não sei se preciso saber. Talvez seja pelo fato de que cachorros não precisam da fala para se comunicarem. Cachorros não teorizam, simplesmente sentem e se expressam com o corpo. Cachorros não planejam o futuro nem remoem o passado. Vivem sempre no agora. E é do agora que eu preciso.

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3 Responses to ERA O QUE FALTAVA EM MIM

  1. mara silvia Benfati says:

    Fantastica sua cronica.Amei.

  2. Luiza says:

    Acabei de vivenciar minutos em que senti, pulso após pulso, o sangue circular pelo meu corpo. Sensação boa essa, hein. Do encantamento da sua caminhada, a qual tenho o privilégio de avistar, ao momento dos belos passos de agora. Ah, como são sábios os animais, também os humanos!

  3. Débora Rossetto says:

    Eu sempre lia os comentários de leitoras da revista TPM sobre o quanto os textos de Milly Lacombe eram sensíveis e tocantes e esperava sentir o mesmo a respeito de alguém. Achei.

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