Descomplicadas Lightbulb

Publicado em outubro 15th, 2012 | por Maíla Diamante

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INFERNINHO A DOIS REAIS

Presente o ano inteiro e em high definition, o sol é menos tímido na capital cearense. Mas a “loira desposada do sol” não deixa por menos à noite. Chega cedo à farra e só vai embora depois de despenteada pelo vento.

Na entrada da cidade, o A do letreiro neon do hotel se apagou e o gringo voltou para casa exibindo aos amigos as fotos de ‘Fort Leza’, gôndola bem abastecida de estereótipos tupiniquins. Naquela terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, tem tapioca, caju e cajuína. Tem também lagosta de pesca predatória vendida na praia por pivete de dez anos.

Anoitecendo, há quem prefira os pecados carnais a caju e lagosta e troque o Mercado Central por vitrines mais à periferia dos olhos. Ali tem carne abundante, das mais tenras às mais trabalhadas pelo tempo. Entre puteiros, a fama maior vai para o estilo neoMoulin Rouge, frequentado por contas bancárias despreocupadas e borrifado por Chanel nº 5. Mas do lado avesso da cidade, na pouco melancólica rua Tristão Gonçalves, a democracia canta vitória no Boite Motel 90, o cultuado Noventão.

Duas moedinhas de um real escondidas no fundo do bolso me foram suficientes pra entrar no covil. Alheio a frescuras, o Noventão é o templo dos motoboys suados. Os meninos se dão ao luxo de frequentar o 90 mesmo sabendo que no 80, porta ao lado, a entrada é de graça. Gastam cinco reais em cada garrafa de Skol, ainda que no 80 saia por três. O noventa tem aura cult decadente e é um dos mais antigos da cidade, mas só o Oitentão ostenta o orgulho de bandeira da luta de classes. Isso porque dizem que a concorrência numérica é de posse de um garçom do 90 que não leva desaforos pra casa, despedido há tempos por brigas com cliente. É que puteiro não é lugar pra filho da puta.

Fêmea quer exclusividade, e meu veneno ia todo para Aninha. Agora tenho vergonha, mas na hora não nego que satisfiz uma canalhice enrustida, traduzindo suas ilusões femininas em frases minhas

No meio tempo entre pagar e preencher a comanda ameaçadora (“em caso de perda será cobrado R$ 300″), lembrei-me dos meus seis anos de ingenuidade. Na época ficava histérica com a recém-chegada caravana de “russos” circenses – porque circo bom é circo siberiano, mesmo que importado das roças paranaenses. Dos autofalantes da Kombi mal pintada anunciavam os clássicos palhaços, leões surreais e contorcionistas cubistas.

Na fila da bilheteria eu não sabia mais quem eu mesma era, afogada em tanto estímulo sonoro e visual. Acho que a sensação era parecida ao efeito proibido do que o irmão mais velho chamava de doce, mais gostoso que o quebra-queixo que eu comprava na vendinha da esquina. Ele cochichava maldosamente sua superioridade experimentada ao pé do meu ouvido, que era pra pai e mãe não saber. Mas na fila do circo, eu esquecia de irmão, pai e mãe, e só me lembrava de mim mesma quando sentia apertar as mãos do vô e da vó agarradas às minhas. “Tá esperando o quê, elefante fugir da jaula e vir aqui comer amendoim na sua mão?” Pois era exatamente isso que eu estava esperando, vó.

Quando entrei no 90, a ansiedade era a mesma que aquela de quase duas décadas atrás, a minha e também a dos clientes que devoravam com os olhos – mas não só – as bailarinas do pole dance. Dessa vez, eu segurava copos de cerveja de boteco, não mais as mãos dos avós. Ali ninguém tinha medo da luz vermelha, onipresente, mas confesso que aqueles lasers verdes e azuis me assustaram. Atravessando o corredor de mesas, eu era a equilibrista. Caminhava cambaleante por entre olhares masculinos que me perguntavam sem voz que diabos eu fazia ali, se eu era da casa ou não.

A leoa do espetáculo, desta vez, tinha um nome: Jackie Joy. Fama de devoradora. Meus amigos me diziam que Jackie já tinha escolhido a presa principal da sua noite, e que essa presa era eu, mas eu fazia questão de pensar que eles estavam errados. Porque quem estava ao meu lado, e quem eu queria que estivesse ao meu lado, era Ana. Aninha, irmã de Jackie, não era nome de leoa, combinava mais com sua rasteirice de cobra discreta.

Puta deseja, deseja escancaradamente, e eu sabia exatamente o que ela queria ouvir. Agora tenho vergonha em assumir, mas na hora não nego que satisfiz uma canalhice enrustida, traduzindo suas ilusões femininas em frases minhas. Em se tratando de menina-mulher, até a pergunta de quanto custa o strip-tease tem que vir embalsamada em jogos de palavras. Fêmea quer exclusividade, e meu veneno ia todo pra Aninha. Mas Aninha era um campo minado. Eu caminhava devagar em direção àquele afeto instável como o meu, pisando em ovos, como se estivesse passo a passo contando as letras de A-N-A, pra não tocar em alguma área sensível de seu orgulho de 18 anos.

Mais desbravadora que meu instinto materno, a testosterona dos amigos não tinha paciência para eufemismos. Enquanto eu queria saber, de mansinho, de que cidade ela vinha, quando ela havia chegado ali, eles já soltaram um “quanto custa o strip para três, nós dois e ela?” O resultado dos dez reais investidos por cada um foi uma lap dance à la Vanessa Ferlito no Death Proof de Tarantino – recomendo a busca no Google. Aliás, bem melhor, porque totalmente desnudo, com direito a “quem comanda hoje é ela” e “o que mais você quer?” na minha orelha. Pra inveja dos machinhos bem menos assistidos que eu. Mas não vou descrever todos os detalhes que se seguiram; não é intenção escrever um conto erótico. Dessa perna, eu só mostro até o joelho.

Jackie rugia de um lado, me fitava do outro, sentava em meu colo e me perguntava maliciosa quando eu voltaria à Fortaleza. Era uma felina muito bem adestrada. Entre os intervalos dos espetáculos no pole, as trapezistas ensinavam umas às outras uns truques arriscados enquanto as ilusionistas investiam suas palavras mais sedutoras em homens casados e carentes.

Num canto distraído, uma colombina cantarolava um naco de Chico pra ninguém ouvir. “Vida, minha vida, olha o que é que eu fiz. Deixei minha vida na mesa dos homens de vida vazia. Mas vida, ali quem sabe, eu fui feliz.” Naquele circo escuro encarapido na Terra do Sol cearense, nem deus sabia se a cantiga era sincera, nem o diabo se dava conta se os orgasmos ouvidos no corredor eram fingidos. Maquiagem borrada, público deselegante, palco escorregadio… Não importavam os bastidores, o show tinha que continuar.


Sobre o Autor

Estudante da UFSC e cozinheira amadora. Abandonou o diploma de filosofia empoeirando na gaveta e ainda não sabe onde deixará o futuro diploma de jornalismo.



2 Responses to INFERNINHO A DOIS REAIS

  1. Guilherme Spinelli says:

    Caraca Maíla, tá escrevendo muito! Comecei a ler o texto e esqueci até onde eu tava. Quem dera eu escrever tão bem.

  2. Marcelo says:

    Forte!!! Mas muito bem escrito!!! hehehe…

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