Descomplicadas insonia_dentro

Publicado em setembro 29th, 2011 | por Maíla Diamante

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INSÔNIA SUB JUDICE

De bruços para um lado, de costas para o outro. A rotação debaixo das cobertas é orquestrada pelo tic-tac do ponteiro dos segundos, único barulho que se ouve às três e meia da matina.

Levanto. Bate aquela coceirinha que precede a fofoca e não tem um cristo online que se interessaria em ouvi-la. Últimos dias do mês, já estou no fim do orçamento e da comédia pastelão locada na Videoteca, assistida na companhia de Palito, o UFSCão recém-adotado. Mas agora Palito saboreia um invejável sono REM, e onde está o meu? No zapping televisivo, as escolhas são Emmanuelle, Otávio Mesquita e uns leilões de tapetes persas. Cadê o cianureto, mãe?

No zapping televisivo, as escolhas são Emmanuelle, Otávio Mesquita e uns leilões de tapetes persas. Cadê o cianureto, mãe?

Calma, relaxa a bolacha que não é hoje que o mundo desaba por umas horas a menos de descanso. Ainda faltam dez dias pra chegar a TPM, encontrei uma nota de vintão na rua e o bofe da academia acabou de perceber que eu existo. Uma espiada na janela: a lua está um brilho só e, como ela, estou cheia de motivos para fazer a advogada da insônia por hoje. É só passar um corretivo nas olheiras e pensar com carinho na noite em claro, mãe de textos despretensiosos ou de teorias revolucionárias. Como desmerecer a parteira de trabalhos acadêmicos aos 45 do segundo tempo? Um brinde de guaraná em pó ao refúgio dos desorganizados!

De onde viria aquela ideia genial de viajar para Tuvalu com uma mochila nas costas e dois trocados furados no bolso? Ou a inspiração para desenvolver aquele discurso genial que convencesse o patrão do aumento de salário? Que seja um plano vampiro de conquistar o mundo, que vira pó ao primeiro raio de luz e deixa os olhos fundos e arroxeados durante todo o dia. Não dá coragem de dar nem bom dia para o chefe, e o mais longe que você vai durante o fim de semana é para um barzinho no centro da cidade. Quer dizer que foram horas perdidas com os olhos estalados até o sol raiar? Mas me diga: que graça teria viver sem um punhadinho de sonhos?

Além de filtro dos sonhos, a insônia é o segredo para amansar paladares aristocratas e desejos insaciáveis. Ela é o guru da vida simples. Sabe aquela latinha de cerveja de quinta categoria escondida na gaveta da geladeira, que você só encontrou porque bateu a larica madruguesca e você foi procurar aquele pacote de fininhas defumadas? Durante a insônia, as fininhas fazem as vezes do salmão ao queijo brie e a latinha é a mais gelada da sua vida. Palito, o UFSCão, já acordou e abana o rabo sem entender a atividade perto das cinco da manhã. Sob o olhar maternal da madrugada até o Palito parece mais querido.

A lista das benesses de uma noite mal dormida segue adiante, mas tem um raio de sol entrando pela janela que não me deixa lembrá-las todas. O sol já está dando o sinal das graças do dia seguinte – por sorte, um domingo. Um beijo pra vocês, outro pra Cazuza, porque estamos por um triz pro dia nascer feliz. Está na hora de o mundo inteiro acordar e nós irmos dormir.

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Sobre o Autor

Estudante da UFSC e cozinheira amadora. Abandonou o diploma de filosofia empoeirando na gaveta e ainda não sabe onde deixará o futuro diploma de jornalismo.



One Response to INSÔNIA SUB JUDICE

  1. Marco Z. says:

    Um viva às noites de insônia da minha época de estudante!
    Com certeza foram momentos especiais, de muita leitura, audições e elucubrações.

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