Descomplicadas lovepalz

Publicado em outubro 30th, 2012 | por Maíla Diamante

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Desde que descobriram as delícias do pecado, Adão e Eva foram longe na produção de brinquedos eróticos.

Distância, aliás, tem sido a musa inspiradora da indústria dos assessórios adultos. É só visitar uma sex shop para ver que a criatividade crescente é diretamente proporcional ao afastamento entre as partes íntimas. O consolo siliconado distanciou por alguns centímetros o pedúnculo masculino de seu playground. O vibrador dispensou a dedicação do homem na diversão monossexual. Aí inventaram aquela calcinha com um bullet que estimula lá ao ritmo da música ambiente. Deve ser estratégico ter um orgasmo tântrico ao fim de um show de rock progressivo sem nem precisar ouvir cantadas de pedreiro ou intimadas corta-lubrificação.

Os apelos para a solidão são criativos, mas felizmente não ofuscam a vontade de tato e sexo a dois – ou três, ou mais, mas vamos nos ficar no arroz com feijão. O desejo aguenta firme até entre casais distante centenas, milhares de quilômetros, que ainda assim querem sentir a empolgação entumecida do parceiro. Como um grupo que compartilha necessidades é sempre mais um mercado consumidor potencial, lá veio a centelha luminosa dos inventores para a “solução de todos os problemas” – geralmente as do bolso do fabricante. Assim surgiram Zeus e Hera, da LovePalz (quem foi o autor genial deste nome?), com a promessa de uma olímpica transa pelo iPhone. Mais uma mordida na maçã das conexões eróticas lucrativas.

A logística é a seguinte: Zeus, para elas, e Hera, para eles, reproduzem órgãos masculinos e femininos, respectivamente. Os aparelhinhos devem ser conectados à rede Wi-Fi através do FaceTime do iPhone e do iPad. Zeus devidamente inserido e Hera corretamente acoplada nas partes íntimas, e os movimentos iniciados serão transmitidos um ao outro através de precisos sensores de pressão e velocidade. Uma pausa para a imaginação do leitor.

Os aparelhinhos devem ser conectados à rede Wi-Fi através do FaceTime do iPhone e do iPad. Zeus devidamente inserido e Hera corretamente acoplada nas partes íntimas, e os movimentos iniciados serão transmitidos um ao outro através de precisos sensores de pressão e velocidade

Zeus e Hera são discretos feito material de escritório. Não esperem um pênis ramificado por veias à mostra ou uma vagina enrubescida. Os brinquedos são branquinhos, cilíndricos e pouco sugestivos, pra não desequilibrar casais que já estão vivendo delicadas relações à distância. Glandes ou clitóris mais bem trabalhados poderiam ser a gota d’água do ciúme à flor da pele e osso. Vai que o parceiro, um dia, prefira a perfeição do instrumento? Tubos minimalistas são menos arriscados.

Fico imaginando a forma pessoal com que cada um segura a vagina e o pênis cibernéticos, para não caírem e espatifarem no chão. Indo mais longe, mentalizo o flagrante de algum desprecavido no meio da diversão alheia. Calça semiapeada, mão circundando o tubinho e movimentos resfolegantes de vai-e-vem em direção – sob? sobre? qual a posição recomendada pelo manual? – um corpo imaginário, que responde com carões e grunhidos pelo Skype, até que o infeliz incidente do desavisado abrindo a porta aconteça. Fosse um flagra durante uma transa presencial, a desculpa seria menos constrangedora.

Mas sejamos práticos. Por mais ridículas que sejam, as tentativas de aproximação de casais desolados são sempre louváveis. Só quem vive sabe o que é a tortura da contagem regressiva para matar a saudade do parceiro. O preço também é convidativo. Faz bem mais jus ao chavão “não custa experimentar” que um We Vibe, o “melhor sex toy do mercado”. O desembolso pelo conjunto é de $95, e separado cada aparelho vale $50, embora eu não saiba explicar como seria brincar sozinho. Uma pechincha mais barata que promoção de voo pela Gol, a solução definitiva para o incômodo da distância.

Voltemos ao lado realista da moeda. Sem querer broxar a excitação consumista, mas os tubos não substituem, nem de longe, as pulsações aceleradas no peito do companheiro depois da maratona sexual ou o cafuné entre casais mais românticos. Um naco de satisfação atiça com vara curta uma vontade mal satisfeita, é mais corrosivo que a abstinência. E um aviso aos fetichistas: o dispositivo também não ejacula.

Não duvido também que, depois de satisfeita a curiosidade, os tubinhos vão parar na lista de compras seus-problemas-se-acabaram esquecidos numa prateleira empoeirada. Mas, diferente do Super Kitchen Machine, não dá pra vender Zeus ou Hera usados no Mercado Livre. Bom, espero de todo coração que realmente não dê.

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Sobre o Autor

Estudante da UFSC e cozinheira amadora. Abandonou o diploma de filosofia empoeirando na gaveta e ainda não sabe onde deixará o futuro diploma de jornalismo.



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