Descomplicadas Foto: Jim Sher

Publicado em outubro 7th, 2013 | por Maju Duarte

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NÃO POSSO MAIS VIVER SEM MIM

Tem gente que acha que é balela de auto-ajuda ou de pseudo bem-resolvido de botequim. Contrariando os bossanovistas, é possível ser feliz sozinho.

Ah, a Solidão. Ela mesma, com “s” maiúsculo, gritando por reconhecimento e por compreensão, é a verdadeira rainha do lar. E não me venha com uma garrafa de cachaça para afogá-la sem parcimônia. Não, amiga. Tenhamos paciência. Dessa vez, nada de arbitrariedades. Vamos deixá-la respirar. Colocá-la no colo. Ninar e acarinhá-la aos domingos pela manhã porque é com ela que a gente nasce e morre. Assim mesmo: papo reto e direto.

O esquema não é fácil, mas ninguém disse que seria. Você acorda, trabalha, matuta problemas, perde o ônibus, almoça, trabalha e decide, sozinho, o que vai fazer quando a noite chegar para mostrar a inevitável presença de ser apenas um-sem-outro no ninho. E aí? Vai chorar ou encarar?

Recordo a primeira vez, aos 25 anos, em que me afoguei na sozinhez. Na praia da Solidão, me debati e não consegui tocar os pés no chão. Justo eu, ex-nadadora semi-profissional, estava me afogando

Recordo a primeira vez, aos 25 anos, em que me afoguei na sozinhez, a ironia nadou em marolas de água salgada. Na praia da Solidão, me debati e não consegui tocar os pés no chão ou estender o pescoço para fora da espuma. Justo eu, ex-nadadora semi-profissional mirim – sim, poderia ter sido este meu destino e não o do jornalismo – estava me afogando.

Até que uma mão masculina, bronzeada de sol, cheia de amor e desprovida de boas intenções me resgatou. E eu me doei para essas mãos como quem, generosa, oferece o último pedaço do cobiçado bolo de aniversário. “Aí está: minha vida.” Dramática mesmo, porque não dava para ser de outro jeito quando se sente que a vida a sós passaria em vão, borbulhando a sua frente.

Ledo engano. Foi naquele momento que, de fato, me afoguei. Queimei versos, perdi a voz, escancarei a porta dos meus segredos mais íntimos e rasguei minha identidade. Por que ninguém nunca te fala que isso pode acontecer quando se sobrevive a uma solidão? Ninguém te fala que é possível morrer da morte mais lenta. Aquela que começa por dentro quando se julga que alguém, o sozinho, não habita seu próprio espaço com placidez e conforto.

A partir daí nos abandonamos e alimentamos o medo de soltar a mão do outro. E mesmo diante desse possível cenário, raras almas – ao menos as humanas – almejariam ficar sós, por livre e espontânea vontade. E assim, segue-se a frenética busca pela parte que as resgatará do rebuliço das ondas do mar. Aos 29, quando me casei, soube disso. E fiz a escolha pela não-solidão consciente, madura, racional. Fui feliz. Muito feliz. Porque já havia aprendido a me resgatar, sozinha. Sem falsas promessas de completude.

Outros, no entanto, não se permitem o mesmo. E sem saber, kafkianamente – perdão pelo desorientado neologismo – se transformam no cão sarnento que corre atrás do próprio rabo. Hoje, à sós novamente, sinto que preciso pedir licença toda vez que esboço um sorriso, danço de olhos fechados, coloco a mochila nas costas e caminho com as mãos vazias.

Na boa? Andar de mãos dadas com o amor é bom. Porém, não “é impossível ser feliz sozinho”, Tom.


Sobre o Autor

Jornalista brasiliense de sangue pernambucano e espanhol, ela jura que é a Velma do Scooby-Doo, mas é tão avoada quanto a velha surda da Praça é Nossa. Cuma?



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