Descomplicadas muro

Publicado em outubro 29th, 2013 | por Maju Duarte

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O GATO SUBIU NO TELHADO

Eles estão perdidos. Não sabem se querem uma amante ou uma companheira. Se pedem colo ou fogem do compromisso. Por que os homens deste século estão chovendo no molhado quando o assunto é “mumuiéié”?

Era uma vez um cara gostoso, inteligente e bom de cama em uma noite de lua cheia. A menina da vez, sabor pitanga – porque é assim que ele classifica a diversidade de mulheres-frutas à cama – respira fundo e afofa o travesseiro. Depois de uma intensa noite de sexo, ela desenha alguns pensamentos para puxar uma conversa. Antes de falar qualquer coisa, ele dá início ao que parece ser um papo filosófico pós-coito. “Gata… O que é o infinito para você?”

Nesse momento, ela se excita. De outra forma, claro. Pensa em qual resposta elaborar para, finalmente, usar aquele repertório de metafísica, física quântica e o diabo à quatro que não costuma compartilhar entre quatro paredes. Sem tempo hábil para responder, apenas escuta: “Pois é, gata…Para mim, o infinito é o tempo entre eu gozar e você sair por aquela porta.”

Pééééééééééééé! Soa a campainha na cabeça dela, que não sabe ao certo como reagir à resposta escrota (com o perdão do termo aqui utilizado na falta de um adjetivo de melhor escalão) do bonitão. Pois é, garotas. Esse é o novo não-príncipe encantado do século 21. Protagonista de um relato verídico narrado minuciosamente em uma revista feminina de salão de beleza.

Até esse ponto, nada de extraordinário no mundo cão dos solteiros. Só que a história entre os dois pombinhos não terminou aí. Lá pela terceira página, lemos a reviravolta. Não é que o gostosão começa a ligar e a enviar torpedos para a garota-pitanga? Sem pedir desculpas – para quê, né? – nem convidá-la para um jantar, um cinema, etc. Ele apenas mantém contato com ela para saber o que ela anda fazendo. Se curte pagode ou rock progressivo. Se prefere Almodóvar a Kubrick. No final, lá estava a bonitona cheia de esperanças. Nas palavras da entrevistada: “Ele gosta de mim só que ainda não sabe o que quer”.

Quando narrei o artigo para um amigo, ele arqueou as sobrancelhas e ficou boquiaberto. Mais por consideração ao meu espanto do que por uma surpresa legítima. “De fato”, ele disse, agora sem fingimentos. “Os caras estão perdidos. Não sabem exatamente se querem a mulher só por uma noite, se investem em algo mais e, assim, ficamos em cima do muro. Até porque tem muita mulher interessante por aí, né? Além disso, não sabemos o que vocês querem e esperam da gente. Entende?”

Hum. Entendo.

Seria a hora de fazer o mea culpa? Nós queimamos o bendito sutiã, defendemos direitos iguais, experimentamos o sexo livre e tomamos pílula anticoncepcional para escolher a melhor hora de ter, ou não ter, filhos. Também passamos a trabalhar por mais horas para crescer profissionalmente, assumimos mais responsabilidades no trabalho e ainda cuidamos do nosso lar doce lar. E para dar conta de tantas atividades e realizar tantos papeis, fomos parar no divã e nos matriculamos em cursos e workshops sobre o ser feminino, essência olvidada em tamanha quantidade de batalhas diárias. Pois é… esquecemos de chamar os caras para nos acompanharem nesse cooper frenético de descobertas, desafios e autoconhecimento.

Foi mal, meninos. A gente espera vocês. Na verdade, a gente já está esperando por vocês. Só que andar em zigue-zague pode não ser a melhor estratégia, hã? E mesmo que vocês tenham consciência de que alguma coisa está fora de lugar, de que algo poderia ser diferente no mundo masculino e no feminino, vocês continuam brincando de pera, uva, maçã e salada mista – e querem ser levados a sério. Tsc, tsc, tsc.

Ainda está para nascer o cara que vai sacudir o status quo dessa macharada do século 21. Dedos cruzados.

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Sobre o Autor

Jornalista brasiliense de sangue pernambucano e espanhol, ela jura que é a Velma do Scooby-Doo, mas é tão avoada quanto a velha surda da Praça é Nossa. Cuma?



One Response to O GATO SUBIU NO TELHADO

  1. ricardo bevilacqua says:

    Nossa, que situação… O que vai acontecer, eu presumo, é que as mulheres irão acabar ficando com mulheres, porque os homens de hoje estão cada vez mais idiotas. Por uma lado, é verdade, algumas mulheres os incentivam a ser assim, bem como toda a nossa adorável civilização, que já não dá valor algum à espiritualidade. Elas os incentivam quando aceitam que sejam definidas apenas por sua beleza, seus dotes sexuais ou coisa parecida. Aquelas que ainda pensam um pouco, por outro lado, logo concluem que o bad boy saradão teve de transformar o cérebro numa ervilha a fim de possuir tantos músculos. Irão amar os nerds? Não conseguirão competir com a mão deles, já acostumada a fazer o trabalho. O fato é que, em resumo, se um homem pensa um pouco, não é desprovido de beleza (e de dinheiro) e tem o mínimo de coração, estará com uma oferta cada vez maior de corações despedaçados.

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