Descomplicadas traicaocapa

Publicado em outubro 28th, 2010 | por Luisa Nucada

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O MOTIVO DO PULO

[Quadro Triângulo amoroso vai mal, do Ben Walker]

Traição parece ser um assunto tão desgastado, abordado à exaustão em clubes da luluzinha, mesas de bar, livros, talk shows, músicas sertanejas.

O Brasil é o país campeão em infidelidade da América Latina, segundo pesquisa do Instituto Tendencias Digitales. Vai ver, a culpa é do calor dos trópicos, que esquenta nossos quadris e catalisa nossos pecados. Mas o que é traição para você? Trair pode ser tão subjetivo quanto condenável.

Talvez para o caminhoneiro que alivia as tensões do volante na profissional de beira de estrada, fazer sexo não signifique ser infiel. Já para o namorado mais ciumento, um forró agarradinho é o pior dos adultérios. Se há desejo em pensamento, o chifre já está colocado? Descabelar o palhaço com revistas masculinas, vale? Na despedida de solteiro, pode?

Na cabeça pueril de Gabriela, não havia nada de errado em dormir com outros homens, se seu coração era só de Nacib

Há alguns meses, um romance clássico sobre o assunto me fez pensar em outro lado da infidelidade. Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, traz as reflexões da moça simplória de pele morena, esposa de Seu Nacib, sírio com quem mantinha uma escaldante paixão. Apesar de amá-lo, não resistia a moços bonitos que vinham “beliscá-la”. Na cabeça pueril de Gabriela, não havia nada de errado em dormir com outros homens, se seu coração era só de Nacib. “Coisa mais tola, sem explicação: por que os homens tanto sofriam quando uma mulher com quem deitavam deitava com outro? Ela não compreendia. Se Seu Nacib tivesse vontade, bem que podia ir com outra deitar, nos seus braços dormir”.

Ela não entendia que para a sociedade o indivíduo é um corpo. Num relacionamento convencional, o corpo de um pertence ao outro. Se alguém faz uso de um corpo que pertence a um terceiro, é clara a invasão de propriedade. Gabriela não tinha nada, como ia entender as relações de posse?

Prazer e consciência

Nem vou entrar no mérito de que a traição feminina é pior que a do homem porque envolve sentimento, sendo que a masculina ocorre por atração física. Mas será mesmo que a mulher só trai quando está envolvida? É muita ingenuidade achar que a mulher não pode enfeitar a cabeça do cônjuge por um par de bíceps, um sorriso sacana ou simplesmente cachaça demais na cabeça. Só o homem tem o direito do prazer pelo prazer?

Falando em prazer, qual é o custo-benefício da traição? Muitas vezes a culpa de trair é tanta que o prazer não compensa. Quem sabe, os agudos instantes do gozo não valham o crônico peso da consciência.

E será que dá mesmo para julgar quem trai? As tentações são tantas! Barrigas de tanquinho, decotes generosos e olhares lúbricos desfilam por aí à revelia, capazes de vitimar qualquer transeunte desavisado.  É mesmo um grandessíssimo filho da puta o marido que dá uma escapadinha de um casamento morno? E a infiel que só tem a carência como companheira e a agenda do marido como eterna rival, merece o apedrejamento moral da família e da vizinhança?

Ok, retorno ao marco zero. Quando se trata de infidelidade, não dá para generalizar, tipificar, julgar. Só deixo uma certeza: ser corno dói. Não há sensação mais ultrajante que a de ter sido traído. A confiança, a consideração, o respeito, tudo que parecia tão sólido se desmancha no ar. Pular a cerca pode ser um pequeno passo para você, mas é um salto mortal para o relacionamento.

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Sobre o Autor

Goiana, cruza de japonesa com baiano, estudante de jornalismo. Alimenta-se de histórias e escoa aqui e em www.anucadadisse.blogspot.com sua tagarelice mental.



One Response to O MOTIVO DO PULO

  1. Emanuelle says:

    Muito bom esse texto e bem divertido também! Afinal traição é “um salto mortal para o relacionamento” mesmo.

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