Descomplicadas capafofoca

Publicado em novembro 17th, 2010 | por Luisa Nucada

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O VALOR DO MEXERICO

De acordo com a Wikipédia, fofoca consiste numa informação não baseada em fatos concretos, especulação sobre a vida alheia.

Fiquei indignada ao ler essa definição, uma puta falta de sacanagem com a coitada da fofoca, que movimenta reuniões, entusiasma círculos sociais e nos faz tão felizes.

Nada melhor que um bafão para nos tirar do tédio cotidiano. Decidida a fazer algo a respeito, resolvi provar que a dita-cuja tem sim sua relevância e instituir o valor-fofoca. Os jornalistas, no exercício de sua profissão, respeitam os critérios de noticiabilidade, ou valor-notícia, que definem o que merece ou não ser noticiado. Vou provar que as fofocas obedecem às mesmas condições, que a partir de agora chamarei de critérios de fofocabilidade ou valor-fofoca.

Os macro-valores-notícia são negativismo, atualidade, importância, interesse, imprevisibilidade, coletividade e repercussão, segundo Gislene Silva (2005). Olha só como uma boa fofoca se encaixa nesses quesitos:

Negativismo – Fulano foi demitido? Sicrano foi corneado? A prima invejosa engordou? Prato cheio para as linguinhas venenosas: a fofoca está mais do que justificada!

Atualidade – “Chega mais que eu vou contar o maior bafão do carnaval de 2008!”. Querida, atualiza, né? Hoje em dia, as informações se propagam na velocidade do twitter!

Importância – Você é um zé-ninguém, não é ninguém na noite, portanto as coisas que você faz ou deixa de fazer não têm importância, ou interessam um grupo muito restrito de pessoas. Agora, se o presidente dos Estados Unidos brincou de basquete com a estagiária… é fofoca da boa, pode espalhar.

Interesse – Desperta a curiosidade, chama a atenção. Que fofoca que não cumpre esse papel? Esse valor-fofoca é o mais óbvio de todos e mais fácil de ser cumprido: por mais morno que seja, um boato sempre interessa a alguém.

Imprevisibilidade – Aqui entram fofocas improváveis, inacreditáveis: a feiona ficou com o mais bonitão da faculdade; a menina com cara de santa engravidou; aquele que todo mundo jurava que era bicha pegou mulher… e por aí vai.

Repercussão / Coletividade – Esses têm a ver com o número de pessoas envolvidas. Quanto mais, melhor. Se o boato deixa o bairro inteiro de orelha em pé, parabéns, seu veneno conquistou uma abrangência admirável!

Viram só o valor jornalístico da coisa? Não é à toa que tem tanta revista especializada no mercado. Esse assunto me fez lembrar de um professor incrível que tive no ensino médio. Ele adorava contar fofocas da literatura, e a que mais me marcou foi “Gente, você sabiam que o Olavo Bilac era necrófilo? Foi pego no flagra no laboratório de anatomia e expulso da faculdade de medicina!”. Que escândalo! Ah, como eu quis tricotar com esse ex-mestre quando fiquei sabendo que o Vargas Llosa já deu um soco no olho do Garcia Marquez.

Especulações apontam que a agressão foi por causa de mulher.

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Sobre o Autor

Goiana, cruza de japonesa com baiano, estudante de jornalismo. Alimenta-se de histórias e escoa aqui e em www.anucadadisse.blogspot.com sua tagarelice mental.



One Response to O VALOR DO MEXERICO

  1. Ana says:

    Luisa, adoro suas colunas! Você tem um senso de humor incrível, os textos são leves, divertidos e muito inteligentes. Parabéns! :)

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