Descomplicadas boreal_dentro

Publicado em dezembro 24th, 2011 | por Luisa Nucada

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PARA NOEL

Faz bastante tempo que não lhe escrevo, mas desta vez não vou pedir nada, não. Nos últimos anos estive pensando muito e quero dizer umas coisas pro senhor.

Descobri que o que eu mais quero não vai aparecer dentro da meia pendurada na chaminé, assim, num passe de magia natalina. Descobri que o senhor não pode me dar o que eu mais quero, porque o que eu mais quero depende quase que só de mim. Descobri que correr atrás da própria felicidade é um pega-pega difícil, e a responsabilidade pesou nas minhas costas feito um saco cheio de presentes.

Todo ano, quando as férias já não eram novidade e o tédio me cozinhava no sofá da sala, eu começava a fazer uma lista de desejos. Costumava ser complicado, porque eu queria a máquina de sorvete da Eliana e a linha completa de brinquedos do Gugu. Então, tinha que pensar com bastante calma no que eu queria de verdade, no que iria me fazer mais feliz. Depois de algumas sessões da tarde conseguia chegar a um item só, que eu desejava com bastante força. Faço isso até hoje, porque, inclusive no pega-pega, se você não define um objetivo, corre atrás de todo mundo e acaba não pegando ninguém.

Todo ano, quando as férias já não eram novidade e o tédio me cozinhava no sofá da sala, eu começava a fazer uma lista de desejos. Costumava ser complicado

Confesso, por uma coisa eu ficava chateada. O senhor sempre disse que se eu for uma menina má, se eu roubar o namorado da amiga, praticar bullying na faculdade ou entrar no Facebook no horário do estágio, não ganho presente. Então, eu entendi que se eu me comportasse, fizesse tudo certinho, teria recompensa no final.

Só que não, fui vendo que mesmo se eu fizer tudo certo, me esforçar, virar a noite, levar a sério, ainda assim o presente pode não vir. Por um momento, duvidei se valia a pena ser uma boa menina. Fiquei indignada, frustrada, com vontade de dar birra. O problema é que já não caibo no colo de um bom velhinho e sou grande demais pra espernear.

Vai ver o senhor não fez por mal. Talvez essa história de mérito só funcione aí no Pólo Norte.

Pensando bem, aprendi a ter paciência. Sempre esperei doze meses pra ser acordada com um “olha o que deixaram embaixo da árvore pra você”. O que é meu tá guardado e um dia vem, não vem? Pode demorar 365 dias, alguns anos bissextos ou uma fartura de natais, mas vem. Vem embrulhado em papel bonito e com laço de fita chique, porque senão não vale, não é justo e vou sair da brincadeira.

Às vezes, penso como seria mais fácil se um vozinho de bochechas gordas me desse uma balinha macia e perguntasse o que quero ganhar, mas, sei lá, essa doçura de shopping não tem sabor de conquista. Ainda não entendo porque alguns conseguem trenó de ouro enquanto outros nem uma rena manca pra montar, mas gosto de pensar que todos têm seu lugar à neve, e mais dia, menos dia, a gente chega lá.

É por isso tudo que lhe escrevo depois de tantos anos, Papai Noel, pra agradecer. Porque, mesmo sendo de mentirinha, o senhor me ensinou um montão de coisas.

PS: Nunca ganhei a máquina de sorvete da Eliana nem a linha completa de brinquedos do Gugu, mas sabe de uma coisa? Não fez falta, não.

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Sobre o Autor

Goiana, cruza de japonesa com baiano, estudante de jornalismo. Alimenta-se de histórias e escoa aqui e em www.anucadadisse.blogspot.com sua tagarelice mental.



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