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Publicado em junho 27th, 2013 | por Vanessa Pinho

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PERDI

Já perdi um cliente por demorar pra entregar as imagens. Um não. Oito ou dez.

Sou muito detalhista e cada cliente é único, assim como cada imagem. Ou seja, edito uma por uma. Faço preto e branco, deixo a imagem saturada ou não. Em um evento, faço no mínimo 300 imagens.

Ainda não consegui me habituar ao estilo “fotografo, logo entrego o trabalho”. Não sei se quero me habituar. Fotografar é como pintar um quadro onde você brinca com as cores. É uma obra.

Quando falo em edição, não estou falando em deixar as pessoas robotizadas, sem expressões, sem rugas, sem vida. No máximo tiro uma espinha ou uma mancha que está ali de passagem. Já perdi cliente por não ter tirado as rugas da vó. A vó era a aniversariante e apareceu em 70% das imagens. A neta me pediu pra tirar as rugas e expressões. De jeito nenhum. Vó é vó. Precisa ter ruguinhas. É bonito, é de vó.

Já perdi cliente por não ter tirado as rugas da vó aniversariante. A neta me pediu pra tirar. De jeito nenhum. Vó precisa ter ruguinhas. É bonito, é de vó

A rapidez com que as imagens ganham o mundo me deixa zonza. Quando baixo as fotos do evento, as imagens iphonicas e smartphonicas já ganharam o mundo todo e minhas imagens são antigas, ainda que eu tenha saído do evento meia hora atrás.

Já saí gorda em sites de fotografia. Já sai de olhos fechados. Já sai até de cabeça pra baixo. Esqueceram de girar a imagem. Sinto medo de aparecer no Facebook mastigando uma coxinha.

Fotógrafos por dinheiro. Esses estão dominando o mundo, trocando de carro, comprando imóveis, ficando mais ricos que os ricos, tudo às custas dos imediatistas que querem tudo pra ontem.

Fotógrafos que comem e bebem no evento. Fotógrafos que usam a câmera como desculpa pra entrar sem pagar nas festas da cidade. Chegam em casa, baixam os cartões e jogam a imagem na internet. Esses estão ricos. De dinheiro. Porque existe o tipo de cliente que se sente privilegiado em ter suas fotos pipocando na porta no dia seguinte, na primeira hora do dia.

Fotógrafas que trabalham de salto. Lembro que da primeira vez que minha irmã me deu um equipamento pra fotografar, eu estava de salto alto, fino, lindo. Ela olhou pro meu pé, riu e disse: tu vai fotografar assim? Ahã, por quê? Por nada. Foi o primeiro e último dia que usei um salto pra fotografar. É difícil manter o equilíbrio. Naquele dia eu queria clicar muitas fotos e ir embora.

Pés no chão. Quanto mais velho e pior o calçado for, melhor a fotógrafa.

Já perdi cliente porque a foto não emplacou na coluna social. Uma vez um amigo disse: demita seu cliente se for preciso. Aquele eu demiti.

Já perdi cliente por gostar de fotografia, porque dominou o mercado o fotógrafo que entregou as fotos primeiro.

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Sobre o Autor

Fotógrafa na empresa www.fabriciapinho.com.br e cronista no Blog “Por Aqui” do Diário Catarinense. A pessoa que sai de casa pra fotografar não tem nada a ver com a que escreve no blog. Na verdade elas nem se conhecem.



2 Responses to PERDI

  1. Marcelo says:

    Pelo visto a pessoa que sai de casa para fotografar está bem próxima da que escreve no blog, aliás, se conhecem muito bem.

  2. A “era da informação” criou uma geração de ansiosos, o fato de um fotógrafo criar um workflow que permita que ele entregue o trabalho rapidamente não torna ele um fotógrafo “sem amor”.

    “Get right in the camera”

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