Descomplicadas

Publicado em maio 1st, 2014 | por Maju Duarte

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PERGUNTE AO PÓ

A ideia de que vivemos a igualdade de gênero se esqueceu de olhar para a galera do fundão e passar o recado: agora sim, tá valendo!

Já não é de hoje que a mulher se pergunta: quem sou eu, onde estou e para onde vou. Tá, essa é uma questão de todos, na real. Do ser humano. Mas hoje a questão perpassa o universo feminino com um certo recalque. E sem beijinho no ombro, por favor. Gurias, minas, pequenas, todas querem saber o que diabos elas saíram ganhando na conquista pós-revolução sexual, vide os dados aterrorizantes do IPEA que repercutiram na mídia e nas ruas como mais uma atrocidade cavernosa. Na pesquisa, uma considerável porcentagem de homens e mulheres acreditam que se ELA usa roupas provocantes, ELA merece ser estuprada.

Outra opinião machista partiu, dessa vez, de um historiador. O pernambucano Luiz Felipe Pondé escreveu em letras garrafais na coluna que assina no jornal Folha de S.Paulo. “Desde as primeiras populações na pré-história sabe-se que sem álcool e conversa (por isso aprendemos a falar, do contrário só as meninas falariam) a humanidade teria desaparecido porque mais da metade das meninas não iam querer transar –principalmente quando descobriram a dor do parto”, cuspiu. Jura????

“Dentro de cada mulher, reside a semente da mudança. É só ela querer, e saber, regá-la”

Fui perguntar aos caras, mais precisamente a um que deu a própria cara à tapa na capa da Revista do Correio, do jornal Correio Braziliense, sobre a opinião e comportamento de homens contrários ao machismo. O analista de TI Silvio Pozza, 31 anos, jura que outros, assim como ele, não te analisam como um pedaço de carne no mercadão. Foi ele quem me deu uma brisa de esperança de que podemos construir uma sociedade isônoma… E que ainda vamos sambar em cima do caixão dessa tal Misoginia da Silva Sauro.

“Não sou um bom porta-voz dos homens, particularmente. Até mesmo porque tudo é questão de nicho social, e eu me cerco de homens que pensam parecido comigo, portanto, isso pode me dar um falso positivo. Mas da pequena amostra de diferentes homens e diferentes meios sociais nos quais interagi, observo que ainda vivemos o machismo ativamente. O que existe muito é o pseudo-igualitário, onde ele profere a todos que defende a independência, respeito e zelo pela mulher enquanto gênero e ser humano, mas na prática, lidando com elas, age diferente, pensa diferente… E acaba por pensar com o mesmo pensamento machista do século 19 no Brasil: Mulher pra trepar, mulher pra casar, a mulher do vizinho pode pegar todo mundo, mas a sua irmã ou filha, ou ex-mulher, não”, observa Silvio.

Resumo da ópera: vamos arregaçar as mangas de novo. Mas vale lembrar que parte dessa tarefa começa por aquelas mulheres que reverberam o discurso do machoman em casa, com os filhos, com as amigas e no trabalho. As mesmas que “ainda compram, ou mesmo vivem, a moral machista ordinária da sociedade, e vive um papel de pseudo-inferioridade. E se acostumam com isto, se acomodam. Dentro de cada mulher, reside a semente da mudança. É só ela querer, e saber, regá-la.” Valeu, Silvio! Estamos contigo nessa estrada onde, no final, teremos todos o mesmo destino: do pó ao pó.

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Sobre o Autor

Jornalista brasiliense de sangue pernambucano e espanhol, ela jura que é a Velma do Scooby-Doo, mas é tão avoada quanto a velha surda da Praça é Nossa. Cuma?



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