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Publicado em fevereiro 10th, 2012 | por Milena Moraes

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PIROPOS E GROSSERIAS

Tenho me perguntado ultimamente algo que sempre me deixou muito P da vida na adolescência e que me fez acreditar em algum momento que eu não agia corretamente, que havia algo errado comigo.

Qual o direito que um cara tem de falar qualquer barbaridade (leia-se cantada estúpida) para uma mulher? Pior, como consegue achar isso o máximo? Resposta imediata: é cultural.

Não estou falando de bobagens engraçadinhas ou de um: “maravilhosa”, “linda”, e tal e coisa. Sou a favor de que as pessoas se expressem, sobretudo se isso fizer bem ao outro. Melhor ainda quando calha de poder responder: “lindo é você!”, e que isso condiga com a verdade, claro.

Não falo de um “piropo” (assim se diz em Portugal e no Rio da Prata) lisonjeiro como o que ouvi recentemente e deixou minha manhã mais alegre: “Isso não é uma rua, é um aeroporto… Só passa avião!” Falo de grosserias e inconveniências. Falo de agressividade de palavras, atitudes e olhares. Falo de saber que não posso ir a um carnaval de rua sozinha ou só com amigas se a intenção não for ser bolinada por estranhos livremente. Falo de uma amiga que, voltando do trabalho de bicicleta, quase sofre um acidente porque um carro passou a 15 cm dela. Surpresa da moça foi se dar conta de que a intenção do carona era passar a mão nela. Falo do disparate de uma garota de 19 anos que foi a uma boate, disse não a um “conquistador” inconveniente e voltou pra casa com o braço quebrado em dois lugares por ele (confiram aqui).

O pior de situações como essas é a mulher refazer mentalmente, e isso é automático muitas vezes, toda a situação e se por a pensar no que fez ou deixou de fazer para que ela acontecesse… A mulher achar que fez algo errado é cultural também. Quem nunca ouviu um “isso não é coisa de menina séria” ou “tava pedindo”?

Quando digo que os homens pensarem que podem falar o que quiserem para qualquer mulher é cultural penso em uma época que só conheço de revistas antigas. Décadas em que a propaganda de máquina de costura era a de uma noiva agarrada na máquina com o slogan embaixo: “Sua companheira para tôda a vida”. O que chega a ser doce e inocente perto de outras campanhas gringas que encontrei na internet, por exemplo esta. Há uma que mostra um tapete de onça com a cabeça de uma mulher, o homem com o pé sobre a cabeça dela e o slogan: “É sempre bom ter uma mulher na casa”. Essa, embora pareça irreal e ainda mais risível que a primeira nos dias de hoje, é bem mais agressiva e parece ainda pautar comportamentos… Ainda é comum em festas por aí os caras agarrarem a mulherada pelo cabelo ou pelo braço na tentativa de ganhar um beijo. Embora a atitude seja bem “neandertal”, muitas vezes eles ganham. Vide imagens de micaretas pelo youtube a fora. Mas se não ganhar, amigo… Não precisa dar um golpe na moça.

Todos nós já tivemos e temos atitudes sexistas. Coisas aparentemente inocentes como achar que o homem tem que pagar a conta do restaurante e que mulher tem que saber cuidar da casa. Ninguém vai apertar um botão e mudar tudo. Mas até que ponto isso reflete nesse tipo de comportamento?  Eu me sinto sempre como uma menininha indignada e questionadora, como essa deste vídeo.

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Sobre o Autor

Atriz, produtora e sócia da La Vaca Productora de Arte. É drama queen por natureza (imaginem quando for mãe) e vai da comédia à tragédia em segundos, "na arte e na vida".



9 Responses to PIROPOS E GROSSERIAS

  1. Agda says:

    Bem verdade que existem os dois lados…homens são literais e mulheres emocionais. Percepções e cérebros completamente diferentes, ainda bem!! Mas como alguns comentaram, mulheres grosseiras destratam homens gentis …e homens grosseiros abordam mulheres educadas. A polemica sempre existirá e fica a dica: homens leiam e tirem bom proveito da percepção FEMININA e mulheres aprendam a filtrar o bom e o ruim. Parabéns a MILENA MORAES pela iniciativa!!!

  2. Marcelo says:

    Existem casos e casos. Na minha opinião, essa agressividade no corportamento masculino se deu e se dá por diversos fatores. Em épocas anteriores, as abordagens eram muito mais delicadas. Apesar do machismo descarado da sociedade, as cantadas eram diferentes, as noitadas eram diferentes, o relacionamento homem e mulher era outro. Muitos homens não conseguem compreender essas transformações e, agem como se aquela bela garota não soubesse o que quer ou o que procura!!! Essa relação homem e mulher (especialmente as cantadas e tentativas de conquistas) é realmente tema muito interessante. Lembram daquele texto, acho que de meados do ano passado, sobre o entojo das meninas em Floripa? Seria legal ter um ponto de vista feminino. Aliás, muitas vezes cantadas educadas e a simples tentativa de conversas são tratadas com agressividade – desta vez das meninas. Seria isso em razão de um “escudo”, contra esses agressivos? Ou isso também seria um resquício cultural, de se manter sempre na defensiva?

  3. Jean says:

    Papo de sapata ou dragão…

  4. Alexsandra says:

    Os homens tem certas limitações… Eles não percebem que o fato de uma panicat se submeter a uma série de humilhações não significa que uma mulher andando de bicicleta na rua queira receber um tapa na bunda.

  5. mari says:

    concordo plenamente com oesse ponto de vista,mas 80% + ou – hoje em dia confunde liberdade com outras coisas,o comportamento da mulher mudou em extremos,seja de submissa em excesso no passado a um comportamento vulgar e desrespeitoso no presente,acredito que respeito tem que se dar pra receber,com atitudes vulgares e obscenas ate, nenhum homen vai respeitar,o que se percebe por ex assistindo tv é que a mulher ta virando um produto de venda,nao se preocuapm em mostrar um talento na tv ,mas sim a bunda,na balada nao respeitam quem esta acompanhada,acredito que cada lugar,ambiente a pessoa tem que se portar de uma maneira adequada,nao misturar as coisas.um abraço a todas

  6. suxis says:

    Falou e disse. Mas também deveria contar a outra parte da história. Como tem bastante meninas super mal educadas na noite. Algumas chegam a ultrapassar os limites e te empurram qdo vc vai simplesmente dar um oi, ou tentar puxar um papo. Na real elas, sem generalizar, só são educadas qdo vc for do agrado físico delas. Ainda bem que não são todas assim…

  7. Alessander says:

    E não pensem que essa atitude é típica de pessoas sem educação, é só lembrar o caso daquele estudante de medicina, o tal de Lucas Felicissimo, que com um soco perfurou o craneo de uma garota no Vechio Giorgio, na Lagoa, por ter se sentido rejeitado por um grupo de amigas que haviam saido de casa apenas para se divertirem, entre elas, sem terem a obrigação de se sujeiitarem a cantadas ou chavecos de quem quer que seja.

  8. Luciana Holanda Mach says:

    Mi, é impressionante como este assunto é cada vez mais recorrente… entendo que mudanças só irão acontecer se o discurso inteligente se manter sempre presente. Parabéns por essa iniciativa. Espero que outras mulheres possam, através da educação de seus filhos, formar uma geração mais bem informada, aceitando o outro (outra) como legitimo sempre. Um beijo querida

  9. Ana Locks says:

    Milena,
    Fico contente em ler o texto e perceber que mais gente se dá conta do sexismo inerente à nossa cultura. E, penso que a melhor coisa que se pode fazer quanto à isso é se posicionar e comunicar uma opinião bem estruturada e coerente, como é a tua, para que se possa gerar alguma mudança na mentalidade das pessoas que ainda cultivam esses valores arraigados.
    Parabéns por ter usado bem o espaço que tens aqui na Naipe. Percebi, acompanhando tuas publicações mais antigas, que isso é algo bem comum. =)

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