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Publicado em fevereiro 7th, 2011 | por Revista Naipe

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POLIFONIA DOS DESEJOS

[Quadro Poligamy, de Danielle Criswell]

“Espero q vc saiba q vc não é a única q o fulano visita”.

Se fosse uma peça ou um roteiro escrito pela autora dessa mensagem, vinda do celular do fulano, a marcação provavelmente seria um “sinta raiva”. Minha reação, no entanto, foi uma risada tranquila, que entreteu momentanemente o ambiente de trabalho silencioso e ansioso pelo fim do expediente. Não, não ri nervosa ou debochadamente. Ri pela graça (ou desgraça) da ingenuidade das palavras, cuja autoria eu ainda não sabia. Sobre ser a única, sim, eu sabia não ser. E não queria ser.

Não acredito muito em relacionamentos monogâmicos. Acredito mais na polifonia dos desejos. Na possibilidade de corpos diferentes, de vozes destoantes, conversas multilíngues, línguas de vários gostos, cheiros diversos, mãos de vários toques. Com conchinha, sem conchinha, só sexo, mais conversa do que sexo, fazer sexo e calar, fazer sexo e conversar, e chorar, e gargalhar, e dormir, e ir embora, e beber coca-cola, e não lembrar direito, e querer apagar, e lembrar durante semana, mês, e funcionar de primeira, e funcionar só depois, e não funcionar nunca… Únicas vezes ou encontros continuados. O mundo é tão grande pra gente experimentar tão pouco.

Claro que quando nos apaixonamos, as vozes se calam um pouco. Mesmo com um acordo poligâmico mútuo, o interesse por outros cheiros, toques e gostos diminui, mas ainda assim existe. Passei quase três anos num relacionamento aberto, de onde vazava uma paixão doida, três ou quatro meses depois escorria também amor, num ritmo de intimidade de se fazer perder, planejando o futuro, velhinhos numa casa de campo, preservando as nossas escapadas permitidas.

Não gostávamos da palavra namoro justamente por ela trazer o peso da posse. E não éramos um do outro. Queríamos ser livres e a liberdade nos fazia querer estar juntos. Éramos companheiros. O termo namorados só se tornou um pouco menos indigesto quando uma professora (que era a fim dele; pena que ele não) lembrou para nós dois, depois de uma aula, o significado em amor que a palavra carrega. Mesmo assim, deve dar pra contar nos dedos de uma mão as vezes que nos referimos ao outro como namorado(a).

Não acredito muito em relacionamentos monogâmicos. Acredito mais na polifonia dos desejos. Na possibilidade de corpos diferentes, de vozes destoantes, conversas multilíngues

As pessoas costumam me perguntar se o fim teve a ver com a poligamia. Não. Teve a ver com a distância. No segundo ano, ele se mudou de cidade, e por mais que a gente se visse umas três vezes por mês, às vezes mais, nunca menos, o lance foi se perdendo em brigas que só existiam à distância.

Antes nos víamos todos os dias e resolvíamos eventuais incômodos, com palavras e carícias e poucos cascos, coisas impossíveis de se fazer por telefone e internet, esses manetas insensíveis.

Outra pergunta que sempre fazem: mas não existia ciúme? Claro que sim. Onde existe humano existe cerca ou vontade dela. Mas existia também a vontade de não sentir e a enorme abertura que nos dávamos para conversar sobre. O acordo poligâmico estava sempre em versão beta.

De início, a única regra era experimentar outras pessoas, depois podíamos ficar com outros quando longe dos olhos em amor e por fim, podíamos ficar, sem se envolver com outras pessoas. Mas quebramos todas as regras consentidamente, pelo menos uma vez. E apesar dos momentos difíceis (sim, claro que eles existiram), se uma paixão surgisse agora, eu repetiria toda essa sensação de liberdade, de amor e amizade. Acredite, é muito menos pesado do que esse desespero de ter de fincar cerca e cuidar da sua propriedade privada.

Por isso, sim, eu sabia, talvez antes de você, que não sou a única. Raras vezes somos a única. Não quero ser a única, não quero só um. A não ser que único se refira à qualidade e não quantidade… Espero que você consiga um dia abrir as cercas e contribuir para um mundo mais bonito.

  • Clique aqui para ler sobre diferentes tipos de relacionamentos.

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Sobre o Autor



10 Responses to POLIFONIA DOS DESEJOS

  1. Fox says:

    Ciúme é posse.
    Amor não é necessariamente exclusivo. (se eu amo fulano, entao, necessariamente, não amo outra pessoa)
    Adultos podem escolher se relacionar com outros adultos da forma que ambos (ou o grupo) quiser. Se não quebrarem nenhuma lei com isso.

    Qualquer pessoa que se incomoda com a escolha do outro é um falso moralista.

    Tendo dito isso: vc pode querer ser monogamico, respeito e acho legal. A escolha é sua. Deixe a gente com a nossa.

  2. Renato says:

    Grande Juarez, faço minha, sua observação.

  3. Téo says:

    Muito idiota este texto…neste caso então o amor entre as pessoas não existe? Onde fica o companheirismo, o dia a dia?
    Relacionamento aberto é para quem não tem vergonha na cara e nem respeito pelos outros.
    Ou está em um relacionamento, ou vai curtir a vida sem compromisso.

  4. fernando B says:

    Renan, a justificativa do relacionamento aberto é pra quem não se garante, é solitário nas internas maioria das vezes, vive um vázio interior e uma procura escondida dentro de sí. Tem muita gente se matando por depressão por causa dessa solidão, transar, o dito fuder é uma coisa, amor é outra completamente diferente. Os incautos vão dizer que isso é justificativa para a posse, a fidelidade, e daí cara-palida. O amor é compatilhamento de experiências, é carinho, é cumplicidade, companhia e também sexo, é claro. Amor é algo que emociona, aquilo que vemos em BBBs da vida é apenas contato animal, não tem valor sentimental e causa na maioria das vezes mais angustia do que ajuda de fato. Soluciona um problema comportamental, mais nunca completa a pessoa como ser humano. Não é muito diferente de um cachorro e uma cadela, de um boi e uma vaca, de um leão e uma leoa, mesmo que digam que o homem é um animal racional.

  5. fernando B says:

    Hoje em dia vale tudo, por isso que temos a cow parade aqui em Floripa, he, he, he. Quem é solteira e não se liga em ninguém pode achar isso, mais o dia que você realmente gostar do alguém vai pensar totalmente diferente. Na maioria dos casos esse tipo de pessoa é vázia, sem conteúdo e utiliza esse argumento como subterfúgio para justificar sua solidão. São as mesmas que não saem da internet dos sites de bate bapo e procuram desesperadamente um homem para relacionamento, as vezes até pagando para isso. É o modernismo, se isso é ser antigo, nesse ponto sou e não abro.

  6. Juarez says:

    O estranho é a mulher querer relacionamento aberto mas ser ciumenta.
    Pior… querer, depois de um tempo, casar!

    Agora pergunto – pra que casar????

  7. Fox says:

    Desde que o casal (ou qualquer outro arranjo de seres humanos) concorde, tudo é válido. E o fato de ter acordo, não torna tudo menos livre. O acordo é só pra garantir que a outra parte sabe das coisas.

    PS: Nunca a maioria vai ter “mentalidade massa” sobre assunto nenhum. Mas Floripa tem sim exemplares mente-aberta.

  8. renan blah says:

    #1, os homens não tem essa mentalidade porque sabem que é mais fácil pruma garota “diversificar suas experiências” do que pra eles. A não ser que a garota seja meio feia e anti-social, e o cara um garanhão. Estranhamente, só gatinhas vem com esse papo de relacionamento aberto…

    Vocês crescem sendo incentivadas a se valorizarem e preservarem, e nós a pular em todas as oportunidades. Quem quer um relacionamento onde o parceiro tá curtindo muito mais outras pessoas do que vc próprio? Só se evitar isso com acordos e negociações, mas aí cadê a leveza e a liberdade?

  9. sarah says:

    nossa, adorei o texto… muito bom mesmo! Algumas passagens parecem que foram escritas por mim por se coadunar exatamente com o que sinto e vivo hoje hahaha
    parabéns!

  10. . says:

    É uma pena que a maioria dos homens aqui da ilha ainda não terem essa mentalidade, uma pena…

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