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Publicado em setembro 8th, 2010 | por Revista Naipe

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“COMA-ME”

[Por Janaina Cavalli]

Alguém aí já viu a versão soft porn de Branca de Neve? Eu vi, quando era criança. Passou no SBT.

Pois bem, quando estive em Amsterdã, no ano passado, fiquei pensando que a cidade serviria de cenário para o soft porn de outra história: Alice no País das Maravilhas. Quer ver como? Ande à beira dos canais, a passos lentos no ritmo dos turistas, ao som das buzinas – “trim-trim” – das bicicletas, sinta o sol na cabeça, vire a rosto para os lados de vez em quando, inesperadamente. Voilà. Alices crescidinhas despontarão de um túnel escuro e fundo, de onde um dia chegaram em vagarosa queda. Elas vão tatear a janela de vidro, olhar para você no lado de fora – sem te ver – e automaticamente te convidar a entrar no túnel com elas, como aprenderam com o coelho.

Talvez você se dê conta de que tudo começou em um dos coffee shops da cidade; você entrou para tomar um café e percebeu, sem querer, exposto na vitrine de doces um bolo com uma linda inscrição que dizia: “COMA-ME”. Bem, você obedeceu. E então já não era mais a mesma. “Curiosíssimo!”, você deve ter pensado.

A partir daí sua sensibilidade para perceber as semelhanças entre a cidade e o soft porn de Alice ficou certamente mais aguçada. De repente você não entende de onde surgiram tantos pintos (de plástico, necessário dizer), de cores tão variadas, e também de tamanhos e formatos diversos. Até os mastros que separam o caminho dos pedestres dos das bicicletas se pareciam com pintos! “É isso mesmo que eu tô vendo?”

Amsterdã consegue abrigar, em um mesmo enquadramento, prostitutas, mictórios a céu aberto e cisnes. E antes de sentir que as coisas estão no lugar errado, você percebe: “Tanto faz, hoje tudo está estranho mesmo, desde que acordei”

Amsterdã consegue abrigar, em um mesmo enquadramento, prostitutas, mictórios a céu aberto e cisnes. E antes de sentir que as coisas estão no lugar errado, você percebe: “Tanto faz, hoje tudo está estranho mesmo, desde que acordei”. E se perde. A cidade, então, te proporciona estar em um bar escuro – num domingo ensolarado à tarde – assistindo a um extasiante grupo de jazz, e permitindo-se ser um outsider: as pessoas naquele bar tem mais de 50 anos, algumas mais de 70; e estão lá flertando, namorando…

Tive a impressão, a última impressão, talvez, de que faz mais sentido admitir Amsterdã como uma história (picante e nonsense) do que vida real. No pacote de emoções que eu trouxe de lá o que ficou do Red Light District foi a seguinte lembrança: manequins úmidas e vermelhas, sentadas à janela de quartinhos pertencentes à outra época. Uma caixa de vidro emoldurava seus rostos. Quando quisessem se fechar em seus mundos reais, tampariam a caixa. Estranhamente, eram caixas de vidro iguais as que expunham comida quente à venda nas ruas da cidade, tão tipicamente holandesas…*

As prostitutas de Amsterdã, definitivamente, se chamavam Alice.

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*A cena descrita é uma percepção da instalação The Hoerengracht (O Canal das Prostitutas), dos artistas Ed and Nancy Kienholz’s, exposta na National Gallery, Londres, de novembro de 2009 a fevereiro de 2010. O vídeo traz uma entrevista com Nancy Kienholz e uma volta pela instalação. Durante as imagens da obra, preste atenção na música, que é o som ambiente nos quartos do Red Light District recriado pelos artistas.

 

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2 Responses to “COMA-ME”

  1. Marcelo says:

    (continua) Até conhecê-la você acredita em certo e errado; depois de respirar seus ares, você já se transformou. As questões surgiram: como pode? É mesmo possível? A partir daí, só depende de você: responder, sim é possível, afinal isso aqui é real. Ou manter-se no preconceito e na crença difundida de que nem tudo que é ‘É’, e que aquilo não passade um simples “Alice no país das maravilhas”. Ingenuidade que acaba, algumas vezes, por destruir o mais importante: a ideia de que tudo é possível.

  2. Marcelo says:

    Deixou muito a desejar. Quem já esteve em Amsterdã sabe o que se passa, e como aquilo é real. O mundo real nem sempre é o mesmo. Aliás, qual é o mundo real? Aquele que congrega a diversidade, com prostitutas se oferecendo ao redor de uma Igreja que balada seus sinos; ou um local onde tudo está separado entre certo e errado, e prostitutas estão escondidas em seus apartamentos? Aliás, aquele bolinho não faz o menor efeito. Amsterdã tem a força e coragem de conviver com a diversidade, em seu sentido mais amplo. E isso tem o poder de transformas a visão de seus visitantes. Aquela cidade transforma o pensamento de qualquer um.

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