Descomplicadas rotina

Publicado em agosto 30th, 2013 | por Maju Duarte

2

QUANDO A ROTINA NÃO TEM VEZ

Todos os dias, homens e mulheres são tomados pelo ímpeto ninfomaníaco de experimentar algo pela primeira vez.

Falamos aqui das estreias prazerosas, claro. Nada de infortúnios que tomam de assalto uma preguiçosa tarde de domingo. E para falar sobre o assunto, não pretendo arranhar o disco. Deixemos, no criado-mudo, o tal beijo, a tal transa e o primeiro amor triunfantes que abocanharam o primeiro lugar do pódio. Não. Nada disso basta. Falamos dos que vivem uma busca voraz pela sensação primogênita. Pela vontade de sentir, de ver, de ouvir, de tocar o desconhecido para, então, gozar “o novo”.

Para isso, alguns se desembestam, como rês desgarrada, em shoppings e compram voluptuosamente em sites de produtos made in China – vide o novo vício Ali Express. Insatisfeitos, provam todos os doces da confeitaria; deixam de pagar a conta da internet para comprar aquele sapato; gastam os últimos trocados da semana com bebidas e acepipes entorpecentes para, quem sabe, vivenciar qualquer, alguma, qualquer tipo mesmo de primeira vez.

Tudo porque não aceitam, ou não querem, a mesmice de viver, todos os dias, a não-experiência da novidade. Insatisfeitos, buscam terapia, tomam remédio para ansiedade e recusam qualquer proposta de estabilidade a longo prazo para, na corda bamba, aguardar o momento em que serão surpreendidos pelo inusitado. Aquilo que os conduzirá a uma breve sensação de trinta segundos de torpor.

Por que é tão difícil viver com o trivial? Por que é tão difícil achar beleza naquilo que acorda, come, vive e dorme – como de costume – todos os dias?

Conduzidos por essa ânsia, se esquecem da confortável presença da rotina que serve café e biscoitos pela manhã. Ou que, pela noite, os cobre com um beijo na testa e um açucarado “durma bem”. A mesma que os toma pela mão ao atravessar a rua e que liga para dizer a que horas vai chegar. É ela quem os incomoda tanto: a rotina irremediavelmente previsível e vazia de números primos.

A esse grupo de pessoas, pergunto: por que é tão difícil viver com o trivial? Por que é tão difícil achar beleza naquilo que acorda, come, vive e dorme – como de costume – todos os dias?

Enquanto os protagonistas dessa história não encontram – até mesmo porque sequer buscam – respostas para essas perguntas, eles se deixam levar pelo sonho de acordar diariamente no set de filmagem do último-capítulo-da-temporada-da-série-de-tevê-favorita. Ufa! Até porque, se hoje não for um dia extraordinário, de que vale tanto empenho em ser… Você?

Tags: , ,


Sobre o Autor

Jornalista brasiliense de sangue pernambucano e espanhol, ela jura que é a Velma do Scooby-Doo, mas é tão avoada quanto a velha surda da Praça é Nossa. Cuma?



2 Responses to QUANDO A ROTINA NÃO TEM VEZ

  1. Anderson says:

    Resultado dessa era moderna-tecnológica-agitada em que as pessoas vivem. Avoadas, não dão atenção sequer para aquela árvore ali ao lado, sua beleza silenciosa e inquietante. Vejamos agora na primavera, estação de deleite para os sentidos, a maioria ve, mas nao enxerga, escuta, mas não ouve, come e nao sente o sabor. Alienados distraídos de tudo, não resta nada. Aos alertas, saudações por contemplar o mundo como ele realmente é.

  2. Marcelo says:

    Em defesa do trivial…

Subir ↑