Descomplicadas Sombrinha

Publicado em abril 30th, 2013 | por Luisa Nucada

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QUERIDO DIÁRIO

Eu costumo insistir em ser burra.

Ser burra de vez em quando é humano, mas insistir em ser burra é burrice. Se eu sabia que ia chover, por que que eu fui sair de sapatilha nova? A sapatilha nova de couro tingido que mancha o pé de tinta. Use sapatilha de couro legítimo e fique com o pé legitimamente tingido, deveria ser o slogan. Porque sabe, né, o couro legítimo agrega valor à sapatilha, o que significa que você vai pagar mais caro por ela e merece no mínimo um slogan. Agora estou com o pé molhado de chuva, manchado de tinta laranja e arrependida de ter comprado a sapatilha de couro legítimo. Mais valia uma de couro falso, que é mais barato e não solta tinta nenhuma. Couro falso não, couro ecológico. Hoje em dia tem nome bonito pra tudo. É designer de sobrancelha, é coaching de não sei o quê, é personal não sei das quantas, adoro.

Em uma semana consegui perder um guarda-chuva e uma sombrinha, outra prova da minha burrice. Ano passado, estou lembrando agora, perdi uma sombrinha que me doeu muito. Tinha custado 25 reais, tinha estampa de bolinha. De bolinha não, de poá. Viu como tem nome bonito pra tudo, hoje em dia? Daí me falaram, tu é louca, como que tu compra uma sombrinha de 25 reais? Sombrinha é o tipo de coisa que se perde toda hora. É que valia o investimento, argumentei, mais resistente que essa sua sombrinha porcaria aí, que vai quebrar com o primeiro vento sul e você vai largar toda escangalhada no chão, feito um morcego morto. Comprar uma coisa cara nunca é comprar uma coisa cara. É fazer um investimento. Ou adquirir um bem de alto valor agregado. É importante saber o nome certo das coisas. Ou o nome bonito.

Já estou bem crescidinha, pensei à época, achei que era hora de parar de perder sombrinhas e que, adquirindo uma de alto valor agregado, eu prestaria mais atenção e não a esqueceria por aí. É tipo quando você está gorda e compra uma roupa uma numeração menor porque tem fé que vai emagrecer. Daí você continua gorda, nunca usa a roupa e de quebra ainda vê uma magrela passando com uma igual, porque além de tudo você é pobre e compra roupa em loja de departamento. Pobre não, com baixo poder aquisitivo.

Hoje em dia tem nome bonito pra tudo. É designer de sobrancelha, é coaching de não sei o quê, é personal não sei das quantas, adoro.

Como perdi uma sombrinha e um guarda-chuva na semana passada, fui ontem a uma loja de importados aqui pertinho pra comprar outra sombrinha. Na verdade era uma loja de R$1.99, mas prefiro o nome loja de importados. Dessa vez fui espertinha e comprei uma sombrinha de 12 reais. Quando eu perder, o que deve acontecer logo, vou pensar: tudo bem, foi baratinha, mesmo. Mas sabe que nem sempre isso do baixo valor agregado funciona como consolo pra uma perda material? Semana passada, a semana em que perdi uma sombrinha e um guarda-chuva, comprei um anel por cinco reais, nessa mesma loja de importados. Ele era lindo, tinha um penduricalho em formato de chave e não tinha cara de cinco reais.  Perdi-o cerca de seis horas depois, e doeu tanto quanto a sombrinha que custou 25. Que burrice.

Tudo bem, desapego, vão-se os anéis mas ficam os dedos, pelo menos não é um ente querido que morreu. E agora eu tenho sombrinha, isso é o que interessa. É provável que ela quebre no primeiro vento sul, se eu não perdê-la antes, mas e daí? Ainda assim poderia ter serventia.

Se eu fosse artista plástica eu faria uma instalação. Um ambiente com chuva artificial, luz sombria, um sistema de áudio reproduzindo sons de trovão e várias sombrinhas pretas quebradas, escangalhadas, como morcegos mortos espalhados pelo chão. Também no chão, estaria um jornal molhado, porém com a manchete ainda legível: “Chuva ácida dizima morcegos”. Seria uma instalação sustentável, porque eu coletaria as sombrinhas quebradas que ficam largadas na rua em dias de chuva e as reutilizaria. Instalação sustentável, olha que nome bonito.

Eu realmente preciso parar de perder coisas. Ou parar de comprá-las, ainda estou decidindo.

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Sobre o Autor

Goiana, cruza de japonesa com baiano, estudante de jornalismo. Alimenta-se de histórias e escoa aqui e em www.anucadadisse.blogspot.com sua tagarelice mental.



3 Responses to QUERIDO DIÁRIO

  1. Vanessa Pinho says:

    E texto que não diz nada, pode?

    Batatinha quando nasce..

    Abraço.

    Vanessa Pinho

  2. Milena Dias says:

    Seus textos são um verdadeiro ponto de interrogação..
    Quando termina, a gente pensa: e ai???????
    Vão do nada a lugar nenhum.

  3. Julio Santos says:

    Nossa! Pensei que estava lendo a Capricho… Ser bonitinha não é desculpa para escrever asneira.

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