Descomplicadas

Publicado em setembro 18th, 2014 | por Maju Duarte

0

SE ME DER NA VENETA

Preso às rabiolas tecnológicas, lá vai Adão: o primeiro homem a teclar em vão.

Adão tinha 27 anos e uma conta de R$ 41,57 a pagar na Eletropaulo. Ele espera todas as manhãs, exatamente às 6h51 o trem que sai para um escritório de rating em economia que mal sequer paga uma aspiração de ser fotógrafo nas horas vagas.

Pobre, Adão…

Hoje, no entanto, porque sempre sobra à adversidade os câmbios da sorte, algo de Buñuel pairava no ar. Não bastasse os respingos de chuva que lhe sobravam da sombrinha emprestada pela ex-mulher, lá estava ele, disputando um espaço sob a marquise de uma estação tão lotada quanto vazio estava sua cota de paciência naquela quarta-feira.

Sem sinal para sequer trocar algumas superficialidades pelo celular, resolveu pensar na morte. “Por que haveria de um dia morrer num acidente de trem?”

Pensava, toda vez que lhe cabiam ideias sórdidas entre uma compra do mês e outra obrigação a se emaranhar na sobra de tempo.

“Que isso… Hoje não será meu dia. E que dia seria esse?”

Com certeza não seria aquele em que lhe passaria pela veneta a façanha de cair desengonçadamente (existe isso?) nos trilhos de uma estação de trem em São Paulo. Ah… Isso não. “Na Gare de Lion sim, vá lá.”

Pobre, Adão?

Passou a mão na testa porque lhe escorria quatro fortuitos pingos que expressavam dor ou ódio por estar às 6h51 da madrugada (ora, onde já se viu) numa estação de trem despreparada para ocasionais recaídas existenciais.

“Na Gare de Lion sim, vá lá.”

Toca o telefone. A mensagem anuncia-lhe um pensamento. “É ela.”

“Por que me move deste tanto? Foda… Vou dizer que estou impregnado do seu cheiro e que quero vê-la outra vez….Direi isso assim que o sinal voltar.”

Mas quando o 3G de Adão volta, escapa-lhe o anseio de vê-la outra vez. Passou.

“Leite, ovos, a ração do cão… O que estou esquecendo.”

“Beijo. Te espero amanhã.” Ela manda. Ah…

“É mesmo. Vou responder”, pensa ele. Afinal de contas é inverno, sobram-lhe garrafas de vinho do último rendez-vous e aquela coceira ingrata do lado esquerdo do saco dera-lhe adeus, au revouir, adiós há três dias.

Ele, então, começa a descrever seu dia para a pequena. Conta-lhe como está com saudades… Muitas saudades,,na verdade, do tempo em que trasladar-se em SP custava menos em horas de sono.

Fala de um sonho estranho que teve. De ser estrangulado pelo padeiro que sequer o conhecia. Mas que Adão já detestava pelo modo grosseiro como ele fatiava os 100 gramas de presunto. “Sem capa de gordura, sei, sei…” Dizia a Adão.

De volta à mensagem… Acrescentou uma carinha triste e outra carinha feliz para não entregar sua fragilidade e, no entanto, revelava certa esquizofrenia tão urbana quanto cínica.

Caminhou três passos para trás, quatro pra frente, enquanto teclava, para aquela menina que havia conhecido há pouco mais de uma semana,,como era ser Adão. Numa alusão a filósofos alemães, personagens bíblicos e caricaturas periódicas.

Ah…Adão!

Enquanto ia digitando sua sorte, caiu no vão.

O mesmo gap do Mind the… na zona 1, 2, 3… De London, london.

No mesmo buraco vazio que outros não viam, ali estava Adão.

Naquele pedaço finito onde o corpo alcança e as mãos deixam escapar porque é tudo tão pequeno, tão virtual e tão em vão que nem mesmo Adão sabia a que fim daria.

Vai não!!!!

“Pode ser amanhã?”, sinaliza um eco entre os dedos de Adão.

(…)

[Foto: spin’n’shoot]


Sobre o Autor

Jornalista brasiliense de sangue pernambucano e espanhol, ela jura que é a Velma do Scooby-Doo, mas é tão avoada quanto a velha surda da Praça é Nossa. Cuma?



Os comentários foram encerrados.

Subir ↑