Descomplicadas 2398510423_0c118de36c_o

Publicado em setembro 10th, 2013 | por Roberta Ávila

1

TODA VEZ

Toda vez que ela entra no meu carro:

– Você é a única pessoa que eu conheço que ainda carrega uma case de CDs no carro.

E toda vez eu:

– E vou continuar carregando.

É que de tantas coisas que ela sabe, e mesmo de tantas outras que ela adivinha, ela ainda não sabe que as pessoas entram e saem com músicas. Não sempre. Mas sempre que importa, sim. Ela quer colocar os CDs em ordem alfabética.

– Eu ia me divertir tanto fazendo isso!

Ela se diverte com a mera possibilidade de organizar o que não é organizável: eu. Dou risada porque sei que ela vai ficar querendo.

Temos coisas mais importantes a conversar. Olhares mais importantes a trocar. Vai ficar para a próxima vez.

Ela se diverte com a mera possibilidade de organizar o que não é organizável: eu. Dou risada porque sei que ela vai ficar querendo

Dali a alguns dias, ela vai entrar no carro e dizer que prefere que eu dirija, porque ela gosta de me ver dirigir. Talvez eu mesma diga. E eu não sei porque, mas se ela se diverte, eu me divirto. Dirijo para entreter.

Não que eu faça qualquer coisa diferente. Não que eu precisasse fazer.

E eu vou pedir para ela trocar o CD. E ela vai dizer de novo que só eu ainda carrego CDs no carro. E eu vou sorrir e esperar ela dizer que ia adorar colocá-los em ordem alfabética. E ela vai dizer.

Eu vou ficar pensando que cada CD ali dentro, por mais riscado, mais inútil, é um pedaço da minha vida em que alguém foi generoso e me deu uma música. Vou pensar em um ou dois CDs, ficar saudosa por um segundo, meu coração pesado no passado.

Mas ela já vai estar em outro assunto, em outro lugar, em outra história, e vai me levar com ela. Eu dirijo, mas ela guia. E eu me deixo ir. É uma coisa que eu aprendi: não importa quem dirige, ela sempre guia a conversa. Eu gosto de assistir ela conversar.

Foi assim que um dia ela me deu Lenine. Ele canta que hoje quer sair só. A gente canta junto, mas não é o caso. Eu não tenho um CD do Lenine, mas não preciso de um. Tenho uma case toda para lembrar dela.

Tags: ,


Sobre o Autor

Jornalista. Viciada em seriados e cinema, acredita que a vida está nos detalhes e que Cazuza escreveu Exagerado para ela. Não decidiu ainda se o amor a gente inventa, mas com certeza é uma metamorfose ambulante.



One Response to TODA VEZ

  1. Marcelo says:

    Muito bom!!! Há tempos eu não lia um texto legal como esse. ;)

Subir ↑