Descomplicadas meuray

Publicado em julho 22nd, 2011 | por Maíla Diamante

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UMA E MEIA MADRUGADA, MEU RAY

Uma e meia da madrugada, e eu poderia estar agora subindo a escada entrecortada por pernas em zigue-zague, caminho para um bar escuro e de porta apertada.

Ali, no balcão, quarta dose pedindo a quinta com o olhar embotado pelo analfabetismo estético. Faço um brinde ao existencialismo demodê e justificável àquela hora da minha sexta-feira nada santa. Ray Charles nas caixas de som mandava o pobre do Jack pro alto da barca do quinto dos infernos. Resolvi acompanhá-lo.

– Hit the road, Jack motherfucker!

A voz saiu alta e sincera o suficiente para que eu ganhasse o quinto copo e a sugestão de não esquecer do gole pra Iansã, que a raiva já passava. Olhei fixo pra mão do meu-rei de sotaque pelourístico segurando o copo. Fui subindo: mão farta, braços fartos, ombros fartos, tudo isso terminando num sorriso emoldurado pela barba mal feita e completo pelos olhos de amêndoas, que sorriam mais que a boca. O acento quente da terrinha longe uns dois dias de viagem se apega a falar mansa e continuadamente. “Salvador, é?!” Ah, meu salvador! Mais uma dose, vai? Blues, livros, umbanda (…) risadas, silêncio desconfortável, gente, viagens… um pouco mais de reticências e risadas. E o Ray dando uma mãozinha com A song for you. Escorrego; derrubo o copo; ele me segura – lembra dos braços fartos?

Escorada na sua boa vontade, reparo no contraste que formávamos. Meus cabelos amarelos desbotados, enrolados em seu pulso, escureciam ainda mais sua pele aconchegantemente negra. Escondi o ridículo do meu descontrole ébrio naquele breu confortável.

– Está tudo bem?

– E como não estaria, meu rei?

Minhas narinas fumegaram aquela fumacinha de julho até o vento sul da janela aberta se desviar nas costas do meu Salvador, que se virou pra me proteger. Pagou minha conta, me levou até minha casa, deixou meu peso no sofá rasgado de canto de sala e voltou para a terra dos sonhos de ébano.

Olho de novo para o relógio. Já é uma e meia da madrugada, e eu poderia estar subindo as escadas de um bar escuro de porta apertada. Mas estou aqui, em frente ao teclado, acompanhada por devaneios sobre um nordeste negro, farto e regado a whisky barato.

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Sobre o Autor

Estudante da UFSC e cozinheira amadora. Abandonou o diploma de filosofia empoeirando na gaveta e ainda não sabe onde deixará o futuro diploma de jornalismo.



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