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Publicado em setembro 29th, 2012 | por Luisa Nucada

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VÂMO PRA CHAPADA

Era fim de uma semana de encontro de estudantes em Brasília, sete noites mal dormidas nas costas e uma mala de roupas sujas na mão.

Eu não tinha mais dinheiro, não tinha calçado adequado, não tinha permissão da mãe (é, ainda preciso disso), nem biquíni eu tinha. Mas eu tinha convite, colchão de ar, vaga em barraca alheia e muita vontade de conhecer a Chapada dos Veadeiros.

Sou fruto do Cerrado, mas nunca tinha botado os pés por lá. A Chapada, encarapitada no nordeste goiano, sempre foi aquele tipo de éden caseiro tão próximo que nunca me dei ao trabalho de visitar.

Fomos ouvindo forró no caminho, sorrindo fácil pelo simples prazer de pegar estrada. A estátua de ET saúda na entrada de Alto Paraíso, o Morro da Baleia dá as boas-vindas no caminho pra São Jorge e tudo indica que vai ser especial.

Fomos direto pra cachu, porque lá ninguém vai pra cachoeira, vai pra cachu. Passamos por uma galera tranquilona, comendo maçã e pedindo carona. “Foi mal, gente, o carro já tá cheio”.

Seguimos a pé. A trilha é puxada, a galera quer ir numa cachu “mocosada”. Vou pulando de pedra em pedra, o impacto na rocha roendo o taco das minhas botinhas de passeio, carrapichos grudando na roupa, todo tipo de vida vegetal arranhando as pernas e eu me sentindo a aventureira, que nem a escoteira que fui aos 13.

Depois do duro trajeto, a recompensa da água gelada dando agulhadas na minha carne cansada. Cada arranhão engendrado no caminho arde como se fosse o único, e os peixinhos contribuem mordiscando minhas canelas. Fico lá, com a água no umbigo, receosa da fundura do rio, observando os malucos dando jumps, porque lá ninguém pula, dá jump. Dão a volta na cachu, sobem até o ponto mais alto e se lançam no ar, os pulmões em pleno grito até o splash final. De braços cruzados, faço reza brava pra ninguém repetir o feito do Marcelo Rubens Paiva.

Vou pulando de pedra em pedra, o impacto na rocha roendo o taco das minhas botinhas de passeio, carrapichos grudando na roupa, todo tipo de vida vegetal arranhando as pernas e eu me sentindo a aventureira, que nem a escoteira que fui aos 13

Ali, desconectada, vou me maravilhando com as sutilezas da terra, com a caprichada arquitetura de Deus. Começo a enxergar a beleza que a cegueira cotidiana não deixa ver. O que é uma manga, senão pura polpa suculenta, deleite tropical, a cada bocada um pôr-do-sol escorrendo pelo queixo? Existe forma mais perfeita que um gominho de mexerica? Mimoso e de um laranja lindo, com centenas de outros gominhos dentro, engomadinhos, cápsulas de sabor laranja. Cara, e o que é o abacaxi? É muita exuberância pra uma fruta só.

Rumamos pro camping com o estômago colado nas costas, a recarga de frutose não foi suficiente. Na cozinha comunitária, alguém convida: “Senta aí, galera, come com a gente, errei a conta e cozinhei demais”. Lembrei de uma amiga dizendo que comida é uma necessidade biológica e pelo instinto de sobrevivência não se divide com qualquer um. Mas, ali, ninguém é qualquer um. É como se todos fossem irmãos, todos filhos da mãe natureza.

À noite, o programa é ver o show do XII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, que sacode o palco montado sobre o chão batido. Espetáculo de baianas rodando, o maracatu do grupo Illê Aiyê enaltece a mulher negra. E eu, triturada pelo cansaço porém faceira, perdida naquela muvuca de dreads, tatuagens enigmáticas, camisetas de Shiva, sandálias de couro e globos oculares preguiçosos, levemente encarnados.

Na volta, a bela ideia de olhar pra cima. É tanta estrela que chega a ser assombroso, o espanto se prende na garganta e fica ali, em forma de nó, até vir a necessidade de respirar de novo. Entre os pontos de luz, umas manchas brancas no firmamento, como se a Via Láctea se derramasse pelo manto negro do céu.

Hora de dormir, de passar frio na barraca pra logo mais fritar viva, quando o sol da manhã começa a bater bem em cima. Acordar, tomar sopão industrializado pra “dar energia pra ir pra cachu” e começar tudo de novo.

Infelizmente, não dá pra esquecer que o mundo é movido à engrenagem do dinheiro. Há que se pagar de 10 a 15 pilas pra entrar nas cachus, que ficam em propriedades privadas. Como disse uma conhecida, “tá tudo capitalizado, o brinco do hippie é lindo, mas custa cinquenta reais”.

Dizem que a Chapada é o sítio mais brilhante da Terra visto do espaço. É local conhecido pela ocorrência de fenômenos extraterrestres e pela fartura de cristais no solo. Anotem: ponto mais alto do Planalto Central, é pra lá que todos devem correr se o aquecimento global inundar tudo. Confesso: se acontecer, vou achar ruim não.

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Sobre o Autor

Goiana, cruza de japonesa com baiano, estudante de jornalismo. Alimenta-se de histórias e escoa aqui e em www.anucadadisse.blogspot.com sua tagarelice mental.



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