Estante aantropologa_dentro

Publicado em abril 29th, 2011 | por Revista Naipe

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DESCRENÇA

[Por Jerônimo Rubim]

A Antropóloga, não se pode negar, é cheio de boas intenções.

Mas talvez seja hora de frear as tendências paternalistas nas quais muita gente do meio artístico e da imprensa catarinense gosta de se lambuzar. A Antropóloga, não se pode negar, falha feio como experiência cinematográfica.

Ganhador do Edital Catarinense de Cinema de 2002, só agora o filme foi finalizado. Nele, a portuguesa Malu cruza o Atlântico e vem passar uma temporada na Costa da Lagoa, reduto açoriano de muitas crenças na ilha de Florianópolis. Ao se envolver cada vez mais com a comunidade, testemunhar e ouvir estranhos causos, suas pesquisas etnobotânicas começam a se transformar em dúvidas místicas e questionamentos científicos. Arma-se aí o chão para o que o filme oferece de melhor: a homenagem ao rico e bruxólico misticismo luso-ilhéu. O sobrenatural da película começa a tomar forma com menções a Franklin Cascaes e depoimentos reais de moradores da Costa sobre crendices.

Florianópolis, a ilha da magia. Temática batuta e cheia de possibilidades de suspense – solo pouco explorado pelo cinema brasileiro e nunca pelo diretor Zeca Pires. Mas à certa altura, depois de algumas boas e outras constrangedoras tentativas de assustar a plateia e criar um climão, há de se perguntar se um extenso documentário não faria melhor ao nosso folclore (a Fundação Franklin Cascaes produziu um sobre a vida do folclorista em 2009). Argumentos promissores, nas telas, podem se transformar em pesadelos estéreis. O cinema é uma arte tão geniosa quanto uma linda mulher de TPM.

A boa trilha sonora usada com certos exageros; as atuações insípidas na sua maioria, com exceções como de Larissa Bracher, que vive a protagonista, uma excelente escolha: erros e acertos comuns para um estado que ainda engatinha, mas erros que evidenciam os problemas de sempre no cinema catarina-brasileiro: roteiro e direção.

O diretor Zeca Pires (que havia cometido o trash-imperdível Procuradas em 2004) e as roteiristas Tânia Lamarca e Sandra Nebelung têm boas intenções ao registrar uma cultura que morre mais rapidamente à medida que a ilha é vendida como paraíso. Mas o potencial do tema não se cumpre, e a ficção não provoca emoções.

Uma bela sacada foi colocar um grupo de punks góticos paulistas na Costa, sinalizando a nova ilha e a falta de entendimento da cultura local pelos de fora. Mas o filme erra na construção desses personagens e na falta de graça em quem deveria fazer rir.

Há indecisão no roteiro e insegurança da direção, deixando o filme claudicante. A viagem imaginada para Malu pelo mundo sobrenatural é bem mais intensa do que a viagem do espectador.

E é aí que voltamos ao Edital Catarinense de Cinema. Há de se concordar que não há acerto sem tentativa, e muitos dizem que R$ 900 mil – dinheiro que o projeto ganhou do Governo do Estado ao vencer o edital – não são suficientes para realizar um longa-metragem. Mas o excelente-e-aclamado-pela-crítica O Invasor (2001), filme de Beto Brant, foi feito com R$ 1 milhão. Boa ideia e execução competente a serviço do cinema e do público.

Há muito dinheiro privado a ser conquistado por aí, à espera de bons projetos para patrocinar. Como alguém disse, esse edital libera muito dinheiro público para alguém apenas “brincar de fazer cinema”.

Acho que vou querer meus 5 centavos de volta, Zeca.

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