Estante criacaodajuventude2

Publicado em outubro 6th, 2010 | por Thiago Momm

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A INFÂNCIA DA JUVENTUDE

Você pode reclamar o que quiser da vida, não importa. Nas 558 páginas de A criação da juventude – como o conceito de teenage mudou o século XX, o jornalista inglês Jon Savage prova que há 120 anos teria sido muito pior.

Era muito pior porque os jovens muito mais trabalhavam que estudavam. Com o crescimento das metrópoles e da indústria, aderiam a gangues violentas – como os Hooligans, de 1898 – e viviam sem referência. Como o conceito de adolescência não existia, ignorava-se a importância de uma educação prolongada e de se entender melhor esse estágio.

Em 1762, Rousseau registrou que a puberdade tinha sintomas como “uma mudança de temperamento, frequentes explosões de raiva, uma perpétua agitação mental”. Apesar disso, não se falava em nenhuma fase intermediária entre a infância e a vida adulta. Para o direito civil, os jovens eram crianças até os 21 anos. Essa percepção demorou a mudar.

O psicólogo americano Stanley Hall, um simpático barbudo de meia-idade, fez muito por essa mudança.  Em uma conferência de 1898, cunhou o termo “adolescência”. Em seguida publicou Adolescence, dois volumes de 1500 páginas sobre o assunto. Ele defendia que a idade de deixar a escola deveria ser prolongada de 14 para 16, e que universitários deveriam ficar isentos das exigências da vida adulta:

“O estudante deve ter liberdade para ser preguiçoso”, disse Hall, recomendando que para o “completo aprendizado da vida” o aluno também precisava “repouso, lazer, arte, lendas, romance, idealização e, em resumo, humanismo”.

Mas isso demorou a chegar. Em 1905, artigos sobre “meninos” e “delinquência juvenil” eram dez vezes mais numerosos que na década anterior. Nos anos seguintes, a Primeira Guerra criaria uma geração completamente desalentada. Terminado o conflito, relata Jon Savage, “idealismo tinha virado palavrão. Todos os grandes temas haviam se pulverizado, e no lugar deles havia um hedonismo imprudente e afoito”. Esse ímpeto combinou com o surgimento do consumo de massa. Em 1922, pelo menos 45% dos adolescentes americanos iam ao cinema uma vez por semana, e dançavam-se ritmos como o ragtime e o jazz. Estava aí o protótipo do adolescente como o conhecemos hoje.

Savage salpica inúmeros dados em um texto extremamente fluente, que alterna histórias privadas à pública. Seu foco, que começa em 1875, termina em 1945, “o ano zero” dos teenagers. As 558 páginas mais que compensam. A Naipe desconhece outra maneira de aprender tanto sobre um passado que nos diz tanto respeito.

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Três livros que antecipam e resumem a época


O Retrato de Dorian Gray
(L&PM, 272 p., R$ 16,50)
Ao se dar conta da própria beleza em um retrato seu, Dorian Gray diz que daria qualquer coisa, alma inclusive, para trocar de lugar com a pintura – que ela envelhecesse e ele nunca. O desejo é atendido e, corrompido pela lábia de um lorde safado, o belo rapagão se perde no festerê da aristocracia inglesa do século 19 . O irlandês Oscar Wilde faz uma ode à vida libertina, intensa e decadente que idealizava para a juventude.


Peter Pan
(Cia. Das Letrinhas, 224 p., R$ 42)
Peter Pan é o garoto eterno que vive aventuras fantásticas na mágica Terra do Nunca. O livro foi escrito para o público infantil mas teve grande apelo entre os adultos. Mantém sua influência e gerou a expressão “Síndrome de Peter Pan”, em referência a malandros que se recusam a crescer. Escreve Jon Savage em A criação da juventude: “Tanto Peter Pan quanto Dorian Gray profetizaram fantasticamente que o século 20 estaria centrado na juventude”.

Este lado do paraíso (Cosac Naify, 334 p., R$ 69)
Fitzgerald se baseia na sua própria vida de estudante de Princeton para analisar a vida e a moral do pós-guerra juvenil.  A geração classe média alta que chegava à maioridade e tomava consciência do seu poder social foi descrita com ousadia e detalhes pelo autor. A partir de Este lado do paraíso, ficou claro que havia um novo tipo de juventude nos EUA, mais agressiva, ambiciosa e inclinada às tentações das bebedeiras, velocidade e sexo.

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Da criminalidade à publicidade

Alguns anos-chave do amadurecimento do conceito de teenager

1889
Com o crescimento das metrópoles, a juventude integra a criminalidade: de 82 mil pessoas presas pela polícia dos EUA em 1889, 10,5 mil tinham menos de 20 anos.

1891
Oscar Wilde, que provocou não haver “nada no mundo senão a juventude!”, publica O retrato de Dorian Gray.

1898
O psicólogo americano Stanley Hall cunha o termo “adolescência”. Também em 1898, o (na época) alucinado ritmo musical ragtime explode nos EUA.

1918
Um terço dos mortos da Primeira Guerra – 3 dos 9 milhões – tinham de 14 a 24 anos.

1920
A escola secundária começa a se massificar: 37% dos americanos de 14 a 17 anos se matriculam. Com o crescimento de 400% da população universitária no país entre 1880 e 1924, as indústrias cultural, de vestuário, cigarros, cosméticos e revistas apontam sua mira para esses novos consumidores.

1944
Os americanos passam a usar a palavra teenager para descrever a categoria com jovens com idade entre 14 e 18 anos. O marketing em cima dessa faixa de idade se fortalece e a revista especializada Seventeen surge. No ano seguinte, a New York Times  Magazine publica A carta dos direitos do teenage. Toda a mídia compra o rótulo.

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* Esta matéria foi publicada na Naipe 3. Clique aqui para ler ou baixar a edição.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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