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Publicado em abril 19th, 2011 | por Bárbara Dias Lino

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AH, SE MARTIN FOSSE BRASILEIRO

Antes de começar a ler a biografia escrita por Gerald Martin é preciso saber algumas coisas: a primeira é que o autor é declaradamente apaixonado por Gabriel García Márquez e isso já diz muito sobre a obra.

Dá pra ver que mergulhou fundo, fundo mesmo, no trabalho. Foram 17 anos de pesquisa, trezentas entrevistas e duas mil páginas escritas! É lógico que a publicação não tem esse volume todo. O resultado são 814 páginas, 135 delas dedicadas às – muitas vezes irritantes – notas de rodapé. Acha bastante? Pois o autor considera uma obra compacta, abreviada e publicada precocemente para que o biografado, já com 84 anos, pudesse lê-la decentemente.

Outra coisa importante é saber que Martin é um inglês que se diz apaixonado pela América Latina, mas ainda assim um inglês. A obra, a começar pelo título Gabriel García Márquez: Uma vida é metódica, calculada, correta e pouco malemolente, como deveria ser algo escrito sobre García Márquez, o “Gabo”, ou “Gabito”, um autêntico, quase caricato, exemplar de latinidade.

O livro trata primorosamente do contexto histórico, das relações políticas e do homem público, escritor célebre e vencedor do prêmio Nobel de literatura de 1982. Fala como nunca da relação íntima e polêmica de Gabo com Fidel Castro. Para quem gosta de história e política o livro é um prato cheio. Mas falta tempero.

A sensação que se espera ter ao terminar uma biografia, ou mesmo um livro de ficção, é a de sentir-se íntimo dos personagens. Tanto trabalho, pesquisa, conversas com pessoas que foram e são próximas de Gabo, e Martin fala tão pouco do particular, do privado. Talvez seja esse o preço que se paga por biografar alguém ainda vivo. Somado a isso, o sangue inglês do autor e o comprido título de professor emérito de línguas modernas na Universidade de Pittsburgh e pesquisador sênior de estudos do Caribe na London Metropolitan University podem tê-lo engessado e o impedido de ousar. Mas, poxa, o biografado em questão era Gabriel García Márquez: um loroteiro profissional, fã de uma invencionice e um bom exagero.

Gabo, disse o próprio Martin, como quem justifica possíveis passagens equivocadas, costuma contar a mesma história várias vezes e de maneiras completamente diferentes -todas com algo de verdade, assim como nos livros que escreve. Márquez disse a ele no começo da pesquisa para o livro: “Apenas escreva o que você vê. Seja lá o que escrever, é o que eu serei”. E se o pai do realismo mágico disse que o que está escrito é realidade, como duvidar?

Martin se conforma em falar do homem público, um pouco excêntrico, politicamente engajado, cheio de manias, trajetória polêmica, escritor das multidões e orgulho da América Latina. É um documento perfeito, com referências, mapas e notas, mas sem magia. Falar de Gabo é falar de uma história tão maluca, mas tão maluca que até parece verdade. Gabriel disse que todo escritor que se preze deveria ter um biógrafo inglês. Sem querer puxar a brasa para a sardinha de casa, mas já puxando, talvez se Martin fosse brasileiro o livro seria menos realismo e um pouco mais mágico.

Ficou a vontade de ter dormido com Gabo nos bancos sujos das praças, sentido junto o frio e ouvido o estômago de quem não come há dias roncar. Ficou a vontade de ter sentido com ele o medo de perder os originais dos livros quase sempre jogados nos cantos dos lugares sujos que morou. Faltou ouvir a voz das putas, as tristes amigas fieis e confidentes, as que teriam as melhores histórias. Resumindo, faltou o cheiro de goiaba que exala ao abrir os livros escritos por Márquez. Faltou magia, latinidade, alma…Quem sabe ainda dá tempo?

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Gabriel García Márquez: Uma vida,
de Gerald Martin, Ediouro, 832 páginas,
R$ 89,90

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Sobre o Autor

Filha, sobrinha, neta e tataraneta de comunicadores, aceitou seu carma e formou-se em Jornalismo. Apaixonada por arte e cultura, chegou a cursar um semestre de Teatro na Udesc, mas descobriu que seu lugar é na plateia.



One Response to AH, SE MARTIN FOSSE BRASILEIRO

  1. Luisa says:

    Eu queria um inglês pra mim, com aquele sotaque divino, mas também com o tchan brasileiro e a genialidade do Gabo. Só isso. Gostei do texto.

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