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Publicado em julho 12th, 2011 | por Thiago Momm

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ALÉM DO TATIBITATE

Amor sem fim. Eis o título que mais sugere romantismo neste mês dos namorados. Muita gente deve ter levado o livro com grandes expectativas sentimentais para casa.

Mas Amor sem fim, do inglês Ian McEwan, 63, é a menos romântica de três histórias amorosas que no final de maio chegaram às livrarias paulistanas (e na internet podem ser encomendados via fnac.com.br ou livrariariacultura.com.br, com descontos que compensam o frete).

Os outros dois livros são O Museu da Inocência, do turco Nobel de Literatura Orhan Pamuk, 59, e Um dia, do menos conhecido dos três escritores, o inglês David Nicholls, 44 anos.

Mas é de Nicholls o melhor livro. Mesmo se você for meio resistente à literatura em geral, compre Um dia imediatamente. Não gostando, fique à vontade para mandar um email furibundo à Naipe.

Dexter Mayhew e Emma Morley passam juntos o dia 15 de julho de 1988. Recém-formados, eles vão à casa de Emma. Cada capítulo a partir de então traz o 15 de julho deles nos anos seguintes, até 2007. Amigos  com rumos diferentes, algumas vezes Emma e Dexter estão juntos na data, outras não. O tema de Um dia, portanto, não é apenas amor, mas também “ser cosmopolita e ter de 20 a 40 anos nas últimas duas  décadas”, ou seja: viver sob cada vez mais tecnologia, consumismo, individualismo e desconfiança do amor tradicional.

Dexter é mais playboy, e Emma, mais alternativa. Longe das caricaturas que essas referências  sugerem, o livro esmiúça as milhares de motivações que nos compõem, construindo figuras complexas, palpáveis, óbvias apenas na medida em que também somos óbvios na realidade. Tão bom  quanto é o retrato social a partir dos meios que Emma e Dexter frequentam em Londres. Não à toa, os resenhistas se empolgaram.

“Um livro brilhante sobre o assombroso hiato entre o que éramos e o que  somos”, avaliou o crítico Tony Parsons, sobre as mudanças de ideais no final do século 20 esmiuçadas peloromance. “Inteligente, engraçado, sagaz e, por vezes, insuportavelmente triste”, diagnosticou o jornal The Times. Perfeito. A Naipe deu cabo das 416 páginas em três deitadas no sofá e assina modestamente embaixo.

Obsessões

Museu da inocência, 568 páginas, demanda um pouco mais de tempo nas  almofadas, mas também compensa as horas despendidas. O cenário da história é a Istambul sempre tão bem explorada dos livros de Orhan Pamuk. Nesse caso, partimos de 1970. Aos 30 anos Kemal, membro  de uma família tradicional e próspera, está para se casar com a refinada Sibel. O porém é seu reencontro com Füsun, sua linda prima distante de 18 aninhos.

Se essa pulada de cerca se repete mas um dia termina, o amor  de Kemal por Füsun persiste. Daí surgirão sua melancolia e o museu da inocência: o lugar em que ele compila objetos que evocam instantes vividos pelos dois – taças, pente, caneta, pincel,  guimbas de cigarro. Objetos que ela usava sempre ou apenas havia tocado. Coisas que no começo Kemal vê como um “doente estudando seus remédios”. Na vida real, Pamuk vem colecionando objetos diversos  ve volta e meia fala em abrir um Museu da Inocência em Istambul.

Em paralelo à comovente obsessão de Kemal o romance retrata, como Um dia com Londres, a Istambul de rápidas mudanças do último terço do século 20.

Blasé-racional

E Amor sem fim, de Ian McEwan? Não, não se trata de uma tradução (muito) melodramática – no original o livro tem quase o mesmo título, Enduring Love, amor duradouro. Trata-se de uma história inspirada em um caso real de erotomania ou síndrome De Clérambault. A principal definição da síndrome diz que o paciente está “convencido de ter uma comunicação amorosa” com alguém que ama, por mais que isso seja negado pela realidade.

De Clérambault publicou seus estudos a respeito em 1942. Ele partiu, entre outros, do caso de uma francesa de 53 anos que acreditava ser amada pelo rei Jorge V, a partir do que via até na movimentação das cortinas do palácio de Buckingham sinais de correspondência amorosa.

Já o livro de McEwan é baseado em uma história de erotomania homossexual. Um homem religioso persegue um escritor científico casado, o que abala o seu relacionamento. Um prato cheio para um bom romance, que McEwan desperdiça se perdendo em digressões e intelectualismos.

Sua narrativa lenta e detalhista à la Jane Austen é um diferencial em Reparação e Sábado, livros que fizeram dele um dos maiores nomes da literatura hoje. Em Amor sem fim, porém, sua pegada blasé-racional-inglesa mata uma história que parece ao mesmo tempo sobre muitas coisas e quase nada. Foram os únicos maus momentos literários da Naipe este mês no sofá.

*Esta matéria é da Naipe 6. Clique aqui para ler a revista em sua versão online.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



One Response to ALÉM DO TATIBITATE

  1. Márcio Pinho says:

    Boa. Vou comprar e mandar um e-mail furibundo. Mesmo porque tem coisas que o legal não é fazer, mas sim contar depois. rss. Abraço.

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