Estante street_in_paris_dentro

Publicado em março 27th, 2012 | por Thiago Momm

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AMOR VERSUS ELE MESMO

“A afirmação de que não precisamos de ninguém vem acompanhada da desoladora constatação de que ninguém precisa de nós, o orgulho da autossuficiência vem acompanhado da angustia de estar só; a aspiração a se distinguir, da imitação frenética dos outros”.

O livro O paradoxo amoroso – ensaio sobre as metamorfoses da experiência amorosa está na página 38 e o francês Pascal Bruckner está só abrindo a sua caixa de ferramentas. Herdamos dos anos 1960-1970 uma “estranheza conceitual”: o amor livre. Se por muito tempo a expressão foi sinônimo de promiscuidade, sexo fácil, agora é preciso “considerá-la em um nível mais elevado, como um oximoro por excelência, o casamento improvável do pertencimento e da independência, essa situação que afeta todos nós, sejam quais forem nossos meios, nossas opiniões, nossas inclinações. Como o amor que une se pode por de acordo com a liberdade que separa?”. Eis o paradoxo do título.

Bruckner – autor de Lua de mel, lua de fel, livro que originou o filmaço Lua de fel, de Roman Polanski, em 1992 – tem a rara habilidade de não deixar que seus julgamentos diminuam o alcance do que escreve. As 256 páginas de O paradoxo amoroso voam muito acima de cismas, rancores, achismos, nostalgia. O autor vivenciou 1968, quando tinha 20 anos, mas mantêm olhos abertos para muitas épocas e outras sociedades. Poucos enxergam com os olhos de tantos. Dessa ampla visão resultam algumas conclusões pouco difundidas. Pelo “paradoxo” do título também se entenda um livro que sabe questionar.

Por exemplo, não somos frios, não nos falta amor: sobra. As generalizadas acusações de frieza são nosso bode expiatório para o fato de que agora estamos por conta própria. “Agimos durante muito tempo como se um único obstáculo de natureza moral, política ou religiosa impedisse o amor de desabrochar em seu esplendor. Os obstáculos caíram e o amor mostrou sua natureza: ambivalente, admirável e lamentável”, diz Bruckner, reforçando pouco depois: “A tragédia clássica opunha uma ligação impossível a uma ordem cruel; na tragédia contemporânea, o amor é morto por ele mesmo, morrendo de sua própria vitória. É exercendo-se que ele se destrói, sua apoteose é seu declínio.”

Infelizmente, diante dessa ambivalência amorosa, “fala-se demais do amor como ele deveria ser e não suficientemente de como ele é”.

Agora que os obstáculos morais, políticos e religiosos caíram o amor mostrou sua natureza: ambivalente, admirável e lamentável, afirma Bruckner

Hoje, a fronteira entre estar só e com alguém “tende a se tornar mais fluida de tão forte que é nossa vontade de aproveitar as duas condições”. Condensamos em uma só pessoa a “totalidade das nossas ambições”. Os muitos divórcios não resultariam do nosso egoísmo, mas do nosso idealismo, “impossibilidade de viver junto ligada à dificuldade de ficar sozinho”. Os relacionamentos morreriam pela ideia elevada demais que cada pessoa tem de si.

Mesmo que o repertório e a perspicácia de Bruckner logo fiquem claros, no desenrolar dos dez capítulos do livro ainda há muito com o que se surpreender: você espera que um autor francês deste naipe recorra aos clássicos literários do seu país, como de fato acontece (Stendhal, Balzac, Maupassant); você também pode imaginá-lo citando vários estudiosos franceses recentes, como também é o caso; mas você dificilmente espera que esse mesmo autor recorra a Friends, Sex and the city, Bridget Jones e Rocco Sifredi (ator pornô italiano) para os seus panoramas atuais. Inclusive há um capítulo excelente apenas sobre sexo.

Enfim, um livro para se ler de uma vez só e para se terminar perguntando quantos tão bons assim vêm sendo publicados – e traduzidos.

[No alto da página: Street in Paris, quadro de Leonid Afremov]

O paradoxo amoroso
Pascal Bruckner
Ed. Difel, 256 páginas
R$ 39
Avaliação Naipe: excepcional

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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