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Publicado em julho 25th, 2011 | por Revista Naipe

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ASSALTO AO BANCO CENTRAL

[Por Everson Antunes]

Confesso que não tinha grandes ambições em relação a esse Assalto ao Trem Pagador, digo, Assalto ao Banco Central.

E no fim elas foram quase totalmente saciadas; no que eu poderia dizer até que o filme é bom, dentro de sua estética de novela da Globo. Bom, chuto que 9 em cada 10 mães no Brasil acompanham alguma novela na TV e fazem seus filhos assistirem junto. Consequentemente a novela faz parte da educação brasileira.

Pois o diretor Marcos Paulo (que só havia dirigido novelas até agora) tenta se distanciar dessa linguagem de telinha para fazer jus a uma produção em 35mm; e o faz num subgênero tipicamente hollywoodiano: os filmes sobre um assalto muito bem planejado. Ele se esforça, mas o ranço da TV atrapalha.

Mais um filme “baseado em fatos reais”: no caso o assalto ao banco central no Ceará, o maior roubo da história no Brasil e o segundo do mundo, quando foram roubados mais de 160 milhões de reais. No filme é mostrada a forma como foi construído o túnel e algumas situações da fuga dos bandidos, mas o resto é ficção e das mais clichês. Por isso mesmo o filme acaba se tornando divertido, mesmo que involuntariamente.

Marcos Paulo segue a cartilha do subgênero bem à risca: Barão (Milhem Cortaz), o bandidão com cara de mau, e Carla (Hermile Guedes), sua mulher com cara de biscate, juntam forças com Mineiro, o bandido bonzinho (Eriberto Leão), e vão arregimentando outras pessoas pra ajudar na grandiosa ideia de fazer um túnel para roubar o Banco Central.

As lutas mano-a-mano parecem telecatch. Mas é com o humor voluntário e involuntário que o filme acaba funcionando. Os atores realmente estão bem. O problema é que os personagens não exigem muito

O diretor adota uma narrativa não linear, que chega a surpreender positivamente. Li alguns comentários reclamando que a história fica confusa demais e quebra o ritmo das cenas. Discordo. Talvez a melhor coisa do filme seja essa montagem “causa e efeito”. Assim, vemos cenas da investigação do assalto que vão revelando cenas da construção do túnel; o que também contribui com o jogo de expectativas para criar o suspense. Mas é aí que a coisa pega. Imagine as piores cenas de ação em novelas: é isso. Tem até uma cena de perseguição de um caminhão cegonheira nada empolgante (só imaginar os acidentes espetaculares que teríamos se fosse Hollywood). As lutas mano-a-mano parecem telecatch. Mas é com o humor voluntário e involuntário que o filme acaba funcionando.

Os atores são os top da Globo, quase todos das mini-séries mais caprichadas. E realmente estão bem. Até o galã da novela das 8 (que começa as 9) está bem em seu papel de… galã. O problema é que os personagens não exigem muito, e os melhores acabam desperdiçados. Destaco dois: Edivaldo (Vinícius de Oliveira, o mesmo menino de Central do Brasil), um reprimido homossexual evangélico, e Doutor (Tonico Pereira, de A Grande Família), um engenheiro comunista que adere a empreitada para expropriar o capital do banco e devolvê-lo ao povo. Claro, ambos são do lado cômico do filme, só que não era pra ser uma comédia.

Do lado da polícia a coisa também não ajuda. Lima Duarte e Giula Gam fazem a velha dupla policial que não tem nada em comum. Coitados dos dois atores, muito esforçados, mas as cenas deles são ridículas. Gam faz uma policial que tenta esconder que é lésbica em situações embaraçosas – e que não interfere nada na história do filme – enquanto Duarte faz um policial tão solitário, mas tão solitário, que invés de uma foto da mulher ou dos filhos na mesinha do escritório tem uma de si mesmo. Junte isso aos diálogos recheados de frases de efeito e teremos uma ótima sessão da tarde (a Globo teria que cortar os palavrões e as cenas de sexo, mas isso não deve ser problema).

É isso: Assalto ao Banco Central é um filme comercial, enlatado, que pretendia ser um Onze Homens e um Segredo e acabou virando Matadores de Velhinhas.

E não acho totalmente ruim isso, se não fosse dinheiro público que financia um filme com a marca da Globo Filmes. Alguém como ela tem dinheiro para financiar seus próprios imbróglios dramatúrgicos que pode usar pra tapar buracos na programação.

Vi uma entrevista na TV com Marcos Paulo em que o repórter ironizava comparando o assalto aos cofres públicos original e o que foi feito para se produzir o filme através das leis de incentivo; o diretor ri e responde que pelo menos ele estava evitando com que os “corruptos” roubassem mais e ainda fazendo um filme. Talvez aí o filme tenha conseguido radiografar mais fielmente a verdadeira cultura nacional: a de que certo é quem garante o seu antes que os outros peguem. Mais do que o inteligente, ou o capaz, é o esperto que virou modelo de comportamento. E o humor do filme se torna sério quando começa a ironizar justamente isso, com o personagem de Tonico Pereira toda hora dizendo: “Isso é Brasil!”

E já falam em uma continuação, o que não surpreende, dado o final aberto. Mas duvido que tenha fôlego para tanto. A começar pela grande dúvida que deve ter ficado na cabeça de Marcos Paulo: ou investe no policial sério e taciturno (e teria que melhorar e muito nas cenas de ação) ou vira uma comédia de costumes, o que acho muito difícil de a Globo deixar. Só espero que não destruam um caminhão cegonheira recheado de carros antes de decidirem isso.

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2 Responses to ASSALTO AO BANCO CENTRAL

  1. denise says:

    discordo totalmente da critica
    o filme é excelente ,tem ritmo, muito bem produzido amei!!

  2. Marcelo says:

    Cada vez mais, fico fã de vocês da Naipe!
    Texto claro de uma critica sem partido!

    Parabéns.

    Marcelo Rodrigues

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