Estante secosemolhadosdentro

Publicado em agosto 22nd, 2011 | por Léo T. Motta

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GIMME GIMMICK

Num mundo onde tudo é plus, todo lançamento é premium e toda garantia é estendida, cada vez mais nos esquecemos do quanto pode ser bela a essência das coisas.

Isso pode soar piegas, mas vivemos numa época em que todo e qualquer diferencial é explorado à exaustão em troca de dinheiro; ou fama, putaria, status, glamour e todas as outras coisas que, de um jeito ou de outro, se pode comprar com dinheiro. Prontamente ficamos de cabelo em pé quando invadem nossa zona de conforto com silogismos sinceros sobre as ditas pequenas coisas da vida. Nos perdemos nas curvas sensuais de iPhones alheios e nossas visões não são relevantes se não forem em Full HD.

“Gimmick is a unique or quirky special feature that makes something ‘stand out’ from its contemporaries. However, the special feature is typically thought to be of little relevance or use. Thus, a gimmick is a special feature for the sake of having a special feature.” Em bom português: “Gimmick é uma característica única ou excêntrica que faz com que algo ‘se destaque’ de seus contemporâneos. No entanto, essa característica especial é tipicamente pouco relevante ou útil. Um gimmick é, basicamente, uma característica especial com o único propósito de se ter uma característica especial.”

Lutadores do UFC com apelidos épicos adentrando arenas montados com gostosonas em suas Harleys, a maquiagem do Kiss, design de embalagem e produto, Elvis Presley branquelo esbanjando mojo e requebrando como os negros da época, Elvis Costello carregando o nome de uma lenda, a superexposição do caso Amy Winehouse e a suposta pedofilia de Michael Jackson, a (má) fama de Bukowski, Burroughs e Hunter Thompson, a polêmica japonesa feiosa que separou os Beatles e ainda assim vendeu discos pra caraglio, entre tantos outros exemplos. Gimmicks, mais que características especiais sem muita utilidade, são sobre a eterna e sempre atual inversão de valores. A música, por exemplo, deixa de ser o foco principal das bandas para tornar-se qualquer coisa que não uma expressão artística sincera quando se exploram vieses comerciais apelativos. Ou você acha que o rótulo de coloridos diz respeito à sonoridade do Cine, Restart e seus genéricos?

O mundo anda tão cheio de special features falsos e meia-bocas que parecemos nem percebê-los, de tanto que os pintam como características imprescindíveis, valiosas. A crise de meia-idade já vem associada à imagem do Activia com seus bacilos danregularis e shows de stand-up são vendidos como apresentações de um membro da banda X muito mais que pelo humor em si. Será que podemos apontar um culpado? Culpemos quem produz, quem maquia ou quem engole?

Barbaridades

Poderia ser o Joy Division em uma viagem aos anos 2000, descobrindo o crack e os prazeres do queijo borbulhante, mas é autoral demais pra isso. Poderia ser o Pink Floyd se deixando levar pela onda punk do final dos anos 70 e subvertendo o Tangerine Dream junto, mas é moderno demais pra isso. Poderia muito bem ser o encontro de Nick Cave, Nels Cline, Can, Magritte, Aretha Franklin e Mike Patton no purgatório, mas o Patton ainda não morreu e.. Bom, deixa pra lá. É Floripa, 2011, e falamos de Cassim & Barbária, que recém-lançou o controverso Cassim & Barbária II.

Analisando particularidades que se destacam, a banda é alvo fácil. Um guitarrista trajado feito gerente de hotel abusa de seus mil e um pedais de efeito enquanto batuques xamânicos ambientam o que o quarteto de três guitarras aponta como uma mistura homogênea de krautrock e soul angular. Canções e não-canções em alemão e inglês, em meio a suites e revisits, dão ao álbum cara de full-length; a variedade nas composições é justamente o que aponta uma uniformidade identitária no caminho que a banda vem trilhando. Ao mesmo tempo mais ousado e incrivelmente mais pop que o EP de estreia, C&B II exala espontaneidade e apresenta sons que poderiam tocar facilmente em qualquer lugar do mundo.

Façamos uma breve reflexão. Temos uma banda que excursionou pela América do Norte, fazendo 13 shows incluindo Canadian Music Week e SXSW, de maneira independente; não tem e não aparenta precisar de um baixo, seja acústico ou elétrico; diz tocar dois dos gêneros mais estranhos aos ouvidos leigos; tem uma faixa em alemão; é formada por ex-membros de bandas famosas em toda região Sul e esgotou o primeiro lote de C&B II em poucas semanas.Por outro lado, uma banda que fez suas tours todas por conhecimento e méritos próprios; muda de formação sem perder qualidade; independente do tamanho da pretensão, pode dizer que toca krautrock e soul angular sem forçar a barra; compôs em outra língua um puta dum hit; não vive às sombras da Pipodélica, da Magog ou da Ambervisions; consegue gerar uma demanda fora do comum para os padrões do sul, ainda mais se tratando de música experimental.

No meio da insanidade toda ainda sobra espaço pra uma bela baladinha lo-fi, folk, e pro otimismo exacerbado da Federação da Luz. Concordo com os amigos Marquinhos Espíndola e Rubens Herbstquando dizem, respectivamente, que “toda a obra se baseia na música que você faz” e que “na verdade encontraram uma dobra no espaço/tempo que permite capturar sons fora do alcance humano” sem muito medo. Pra não soar como lenga-lenga de mídia paternalista, afirmo e assino embaixo que o buzz todo se dá pelo charme e sinceridade do Zimmer, além da hospitalidade do Gabriel quando te recebe no hotel dele. O XuXu e o Cassiano estão ali, claro, mas são só alma e cérebro da banda.”Vocês gostam de blues? Vocês gostam de ioga? Vocês gostam do dark side?”
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Por Leo T. Motta

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Sobre o Autor

Cidadão da terra, não-jornalista e proto-publicitário, mais feliz longe de música depressiva e blues engraçadinho. Assistente de conteúdo d'O Sol Diário, assessor de comunicação da Casa de Orates e music supervisor nas horas vagas.



4 Responses to GIMME GIMMICK

  1. Léo T. Motta says:

    [quote name=”diogo”]

    a galera tem tocado por aqui??

    [/quote] Não sei se muito por aí, mas mês passado fizeram o pré-lançamento desse petardo na nossa festa, tocando com Lenzi Brothers e Macaco Bong! Devem circular bastante ainda com esse CD.

    Abraço!

  2. Léo T. Motta says:

    SERVIÇO DE UTILIDADE PÚBLICA: “Cassim & Barbária II” pra streaming e download gratuitos, pela própria banda: http://soundcloud.com/cassimf/sets/cassim-barb-ria-ii

  3. diogo says:

    dá-lhe leó!! aqui é o diogo, teu colega de pirão

    parabéns pelo texto e curti muito o som!!

    a galera tem tocado por aqui??

    abração

  4. Gabriel Orlandi says:

    Excelente! Valeu.

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