Estante woodyallencritica

Publicado em junho 24th, 2011 | por Thiago Momm

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MEIA-NOITE EM PARIS

Estreou este mês (junho de 2011) Meia-noite em Paris.

O protagonista Gil Pender (Owen Wilson) prefere Paris debaixo de chuva e em 1920, especialmente por causa do círculo artístico que povoava a cidade: Zelda e Scott Fitzgerald, Picasso, Hemingway, Salvador Dali, Buñuel, Gertrude Stein e assim por diante – uma lista que no filme chega a cerca de 20 nomes, e que os íntimos da história parisiense da época terão orgulho de encontrar nos seus Googles mentais.

Pender, bem-sucedido roteirista de Hollywood, não quer mais isso da vida: para desconfiança da sua esposa patricinha e inconformidade dos seus sogros republicanos e consumistas, sua maior ambição é se tornar romancista.

Os quatro, todos norte-americanos, estão passando algumas semanas em Paris. Uma bela meia-noite, os suspiros de Gil Pender pelo passado dão resultado: uma limusine do começo do século passado para em uma ruela e Scott Fitzgerald o convida para entrar. Pronto. Pender vai a 1920 e circula pelo meio boêmio de então, o que se repetirá pelas madrugadas seguintes.

O filme é extremamente bem amarrado, agradável, com doses leves mas eficientes de humor. Como em boa parte dos seus longas mais recentes, Woody Allen não atua. Logo, não há um protagonista enervado com excesso de gags e os méritos da história ficam mais no seu calmo desenrolar.

Como em boa parte dos seus longas mais recentes, Woody Allen não atua. Logo, não há um protagonista enervado com excesso de gags e os méritos da história ficam mais no seu calmo desenrolar

O tema principal de Meia-noite em Paris, aponta a crítica, é a insatisfação com o nosso próprio tempo, seja ele qual for. Em 1920, Pender se relaciona com Adriana, uma amante de artistas como Braque e Picasso – e ela, por sua vez, suspira pela Belle Époque, mais especificamente a década de 1890.

Hemingway e Facebook

O filme remete também a uma nostalgia específica, a dos artistas e consumidores de artes em geral. Em 1920 vários dos criadores mais influentes do mundo estavam reunidos lá, num único salão parisiense, e todas as artes pareciam mais viscerais e relevantes socialmente. Bem diferente dos tempos atuais, com grandes escritores vivendo em diferentes cantos do mundo e com as artes perdendo atenção diariamente para o entretenimento e a tecnologia – experimente ler piadas do Kibeloco, usar um iPad, jogar horas de Playstation 3 e depois segurar um romance de Fitzgerald.

“Por que se passava tanto tempo apurando pontos de vista e escrevendo livros ou pintando quadros dramáticos?”, o consumidor de hoje parece compreensivelmente se perguntar.

Não à toa, portanto, Gil Pender gostaria de estar na Paris de 90 anos atrás. Em termos de inveja planetária, ser Ernest Hemingway era algo como ser Mark Zuckerberg, o criador do Facebook.

E há mais motivos para suspirar com Pender. Na Paris de hoje, ele e a noiva passeiam com um casal de amigos. O homem desse casal (o barbudo da foto lá em cima) é uma fonte infinita de datas e clichês sobre vinhos, pinturas e estátuas de Rodin. Foi o que sobrou de tanta ambição e criação artísticas de um século atrás? Turistas desinformados ou blefadores falando bobagens jardim do palácio de Versalhes afora?

Parece que sim. Mas aí entra o golpe de mestre de Woody Allen. Demonstrar sutilmente que mesmo nos grandes lugares de uma grande cidade em uma grande época histórica as coisas talvez não fossem tão incríveis assim. Adriana insiste em dizer para Pender que prefere a Belle Époque. E nos deixa pensando se a insatisfação com o nosso próprio tempo não é a insatisfação com as outras pessoas – e, acima de tudo, com nós mesmos.

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Agradecimentos: Cinesystem, Shopping Iguatemi

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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