Estante Destempero de Freud com os discordantes segue, no século 21, contra novos adversários da psicanálise

Publicado em agosto 7th, 2012 | por Thiago Momm

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NÃO BRIGUEM

Quando o historiador Peter Gay publicou Freud – uma biografia para o nosso tempo, em 1988, a psicanálise já deixara de ser um totem.

Antes, mesmo nos Estados Unidos, sempre tão desprezados por Freud, discípulos fincaram raízes e houve décadas de reverência. Mesmo lá, até 1960 a psicanálise conquistara o campo da psiquiatria. Mas isso evaporara. Em novembro de 1993, a perguntana capa da Time era: “Freud morreu?”

Recentemente, a biografia de Peter Gay, uma das mais completas sobre o fundador da psicanálise, ganhou nova edição da Companhia das Letras (816 páginas R$ 45). Hoje, aquela capa da Time soa quase amistosa. Supremos em inúmeros países, descrentes do legado freudiano agora tentam tomar a França – tida, ao lado da Argentina, como principal baluarte psicanalítico. Em 2005 os franceses viram ser publicado O livro negro da psicanálise – viver e pensar melhor sem Freud. Com seus artigos, os 40 autores de 10 nacionalidades e formações variadas (psiquiatras, psicólogos, comportamentalistas, filósofos, sociólogos, jornalistas, historiadores) acertaram algo. A obra foi tida pela revista francesa Le Nouvel Observateur como “livro-acontecimento” e logo gerou livros-resposta: Mas por que tanto ódio?, da renomada psicanalista parisiense Elizabeth Roudinesco, e O antilivro negro da psicanálise, do filósofo e psicanalística francês Jaques-Alain Miller.

O livro de Miller é o único ainda não publicado por aqui. Os outros ganharam edições nacionais em 2011. O livro negro chegou reduzido, com 23 colaboradores.

O que tanto briga esse pessoal? Antes, vale observar como briga. Adeptos das TCCs (Terapias Cognitivo-Comportamentais) e psicanalistas trocam vitupérios como oponentes trocam tabefes em um octógono do UFC. Leigos que desconhecem as cartas de Freud para os seus desafetos, batendo mais no recalque do que nos argumentos do destinatário, podem se assustar com tamanho destempero.

Adeptos das TCCs e psicanalistas trocam vitupérios como oponentes trocam tabefes em um octógono do UFC. Leigos que desconhecem as cartas de Freud para os seus desafetos, batendo mais no recalque do que nos argumentos do destinatário, podem se assustar com tamanho destempero

No Antilivro negro, Miller tenta demonstrar “em que medida as TCCs estão consoantes com a progressão das práticas de controle social e adestramento humano do início do século 21”. Igualmente irascível é a resposta de Roudinesco, a despeito de falar em ódio alheio. Ela toma os piores artigos do Livro Negro pelo todo. Seus adversários soam cruéis, caricatos, levianos. Questões psicoterápicas vão para segundo plano. Claro, O livro negro tem também seu som e fúria. Os psicanalistas seriam cúpidos que prolongam caras terapias, e a parte problemática das 6226 páginas publicadas por Freud, muitas vezes fruto de maquiavelismo e marketing.

À parte esses excessos, a obra é interessantíssima. Nos melhores artigos é uma iconoclastia afiada, minuciosa, civilizada; um questionamento a fundo da eficácia da clarividência psicanalítica; uma reunião de psiquiatras e adeptos das TCCs que passam longe do estereótipo do arrivista contente com pacientes dopados e falsamente felizes. “A psicanálise não deve seu sucesso à superioridade terapêutica, mas ao modo particular de organização institucional”, escreve a historiadora Sonu Shamdasani. “A psicanálise”, afirma o filósofo Mikkel Borch-Jacobsen, se adapta a diferentes contextos e responde a diferentes expectativas por ser “uma nebulosa sem consistência, um alvo em perpétuo movimento”, não ciência de hipóteses autoconfirmadas.

E Freud – uma biografia para o nosso tempo no meio do octógono? Indispensável. Obra de um grande historiador, é uma sólida descrição progressiva do tempo de Freud (1856-1939), aí inclusos judaísmo, Viena, ideias filosóficas, políticas, médicas, psicológicas, sociais. Mesmo que o livro tenda para o elogioso e o leitor eventualmente alguém pouco partidário das ideias freudianas, é dos melhores relatos do início da psicanálise. Vale conferir.

 

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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