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Publicado em outubro 28th, 2011 | por Diogo Araujo da Silva

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NOSSA CRUZ, NOSSO GOZO

“Quem é ateu e viu milagres como eu.” (Caetano Veloso)

Tendo nas mãos o livro Aprender a viver – Filosofia para os novos tempos de Luc Ferry, filósofo e ex-ministro da educação na França, obra de iniciação à filosofia cuja venda ultrapassou os 350 mil exemplares em seu país, fui direto ao ponto: abri o capítulo sobre o cristianismo para ver como um alto representante do continente europeu refletia, no século XXI, a relação entre filosofia e religião.Mais uma vez me frustrei imensamente. Um livro que carrega o referido subtítulo, tendo sido escrito em 2006, em minha fantasia bem que poderia trazer algum grau de consciência do fenômeno do esgotamento do laicismo desde o nosso para novos tempos. Explico-me.

A palavra laicismo quer dizer, de maneira simples, ideologia que se afasta das religiões. Esta ideologia, como qualquer um deve ao menos suspeitar, é muitíssimo presente como uma das forças de nosso tempo. Sempre que vemos ou aderimos, por exemplo, a vários dos protestos contra o Vaticano, como os favoráveis ao aborto ou ao uso da camisinha, estamos diante de um avanço político do fenômeno laico, tal qual o concebe a Europa.

É que durante todo o século passado os pensadores, artistas e militantes libertários do velho continente praticamente viraram do avesso as opressões e dogmas da Igreja, promovendo toda a revolução sexual, estética e de costumes da qual nós somos filhos. A aceitação da igualdade entre os sexos no fortalecimento da mulher e a luta contra a homofobia, fenômenos que ocupam as principais notícias do nosso cotidiano, vêm ambas como frutos das lutas declaradas dessa ideologia.

Entretanto, o laicismo é um fenômeno reativo. Ele reage a uma determinada concepção de religião, institucional, a que elege como opressora e inimiga da liberdade. Eis meu ponto: quanto mais as conquistas da ideologia laica evidentemente se concretizarem, mais próxima estará de seu próprio fim, ou seja, da exigência do estabelecimento de pelo menos uma outra ideologia, tão reativa quanto, que responda às novas perguntas dos “novos tempos”. Compreender e interpretar esta mudança, bem como o próprio caráter de reação das ideologias, é a filosofia de nosso tempo.

Entretanto, o laicismo é reativo. Reage a uma determinada concepção de religião, institucional, a que elege como opressora e inimiga da liberdade. Eis meu ponto: quanto mais as conquistas da ideologia laica evidentemente se concretizarem, mais próxima estará de seu próprio fim

O pensador cristão Blaise Pascal (também físico e matemático genial, o mesmo que ouvimos falar na escola), lá no aparentemente distante século 17, é muitíssimo mais contemporâneo que seu conterrâneo ao dizer: “Tudo o que se aperfeiçoa pelo progresso também perece com ele. Tudo o que foi fraco nunca será inteiramente forte. Por mais que se diga: cresceu, mudou; a verdade é que também continua sendo o mesmo.”

A maneira como Luc Ferry vê o fenômeno religioso, cristão, pareceu-me tão simplificadora, amedrontada e maniqueísta quanto a que paira no senso comum intelectual da infeliz consciência europeia nos dias de hoje, dias que começam a sentir o esgotamento da verve laica ligada ao libertarismo.

Visto de maneira radical, o cristianismo é ateu, pois instaura a salvação não por meio de um Outro, mas por meio de um homem, mais simples que extraordinário, ao contrário do que defende Ferry. Cristo é todos os homens, todos os homens são Cristo. Cristo é Deus, nós somos Deuses. A água é transformada em vinho e não o contrário. Cristo filosofa nas ruas e nunca propõe um afastamento meditativo em relação ao cotidiano. É o Deus sensual, é o Deus da carne. Faz milagre, que é o fato evidente, e não se esconde em instituições. Destrói o meio, encarna a religião ele mesmo. Propõe o encontro, o perdão, o amor.

Disse que fui direto ao capítulo do cristianismo, mas poderia ter aberto o livro em qualquer página para ver que uma filosofia “para os novos tempos” carece de uma muitíssima maior radicalidade. Espiritualmente nosso caro amigo anda se embriagando com vinho avinagrado. De barriga cheia, assim como os bluseiros, os filósofos também fazem má música.Aconselho o caríssimo a vir ao Brasil, experimentar o esplendor sufocante da miséria e tentar escalar as coxas da musa absoluta Ivete Sangalo a fim de alcançar o êxtase da salvação. Quem sabe aí começaria a entender que dizer “e o verbo fez-se carne” é algo muito mais ateu do que a sua filosofia mela-cueca vinda de um mundo em que o bem ainda é um encanto que apenas foge da tragicidade da existência, nossa cruz, nosso gozo.

Aprender a viver – Filosofia para os novos tempos

de Luc Ferry, Ponto de Leitura, 304 páginas
R$ 19,90 (na Saraiva online)

TRECHO
“Um filósofo acaba duvidando de que as respostas religiosas bastem. De alguma forma, ele acaba sempre pensando que a crença em Deus, que surge como que por reação, à guisa de consolo, nos faz talvez perder mais em lucidez do que ganhar em serenidade. Ele respeita os crentes, é claro. Ele não supõe necessariamente que eles estejam errados, que sua fé seja absurda, ainda menos que a inexistência de Deus seja certa. Como, verdade seja dita, se poderia provar que Deus não existe? Simplesmente não há fé, ponto final. E, nessas condições, é preciso procurar em outro lugar, pensar de outro modo.”

 

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Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



4 Responses to NOSSA CRUZ, NOSSO GOZO

  1. ZELI JOSÉ WILLEMANN says:

    NÃO SE ESQUEÇAM QUE RELIGIÃO É RAZÃO ABSOLUTA.

  2. Braz Moulin says:

    e o carinha vendeu 350 mil exemplares. por baixo, uma milha.

  3. Rafael Ribeiro says:

    Diogo, tu é foda!

  4. Flora Holderbaum says:

    Meu nosso Deus, diogo você explicou-me toda no que eu queria des-explicar…e assim….faço de minhas palavras a s suas…Mais que Perfeito esse texto vêm muito ao encontro da gente amigo>..Lindo demais!!!

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