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Publicado em maio 9th, 2011 | por Thiago Momm

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O EXEMPLAR WILDE

A entrevista era sobre expectativas profissionais. O estudante da terceira fase de Direito na UFSC, já estagiário, diz ter pressa para se formar e me explica: “É que a gente fica agoniado para sair daqui e mostrar o que sabe.”

Depois de sorrir da sua ingenuidade, me compadeci. Seu desabafo era compreensível. Cresce a cobrança do mercado, aumenta tanto a angústia de se diferenciar como, mais tarde, o gosto de revanche ao se conseguir algo especial. Nada de “#¨*@&%, me provei que conseguia!”, e sim “#$#%#&@, falaram que eu não ia conseguir, vão *&¨$##$*!”. Ouve-se inclusive muito ex-BBB dizendo com rancor que “finalmente reconheceram” o seu talento, ainda que às vezes seja quase impossível decifrar que talento é esse.

O mundo parece em dívida com quase todos nós. Como se quase todos tivéssemos uma assombrosa capacidade profissional escondida. Como se precisássemos ter. Como se não houvesse outros objetivos tão relevantes quanto os de trabalho.

Reflito tudo isso a propósito da leitura da biografia Oscar Wilde (L&PM, 336 págs. R$ 20), de Daniel Salvatore Schiffer. É claro que ler sobre a vida de alguém tão pretensioso pode justamente atiçar a nossa ambição. Conhecido não só pelo que publicava mas também pelos aforismos soltos ao vivo, Oscar Wilde (1854-1900) disse, ao terminar de cruzar o Atlântico e pisar na alfândega de um cais americano: “Nada tenho a declarar, senão o meu gênio.”

Só que a leitura da biografia de Wilde pode também nos devolver ao nosso devido lugar, porque mostra o que é ser realmente fora da curva. A leitura ideal para quem anda agoniado para mostrar o que sabe.

A leitura da biografia de Oscar Wilde pode nos devolver ao nosso devido lugar. É a leitura ideal para quem anda agoniado para mostrar o que sabe

Antes de dar ao planeta suas palavras, Oscar Wilde empanturrou-se delas. Na adolescência dominava grego, latim e os textos dos sempre citados mas tão pouco lidos pensadores dessas línguas. Depois teve entre seus professores o gigante crítico inglês John Ruskin, e logo estava conectado, por mérito das suas falas tantalizantes, a algumas das maiores referências da intelectualidade do final do século 19.

Isso tudo além do ingrediente sofrimento, tão lamentável mas tão inevitável nos melhores escritores. Para ficar em uma lista mais objetiva: a perda precoce de uma irmã e duas meia-irmãs; a sífilis que o perseguiu ao longo dos anos; o casamento problemático com Constance por causa do seu homossexualismo; e sua paixão pelo jovem Bosie, ou lorde Alfred Douglas – a outra parte dos famosos “atos sodomitas” que levaram Oscar Wilde à prisão, à falência e ao ostracismo no final da vida.

O mais surpreendente? Oscar Wilde também era um sujeito animado, ao contrário do que indicam seus tantos problemas e o olhar pesado com que aparece nas fotografias. Conhecido como o maior dos dândis, vivia aprumado, viajava, aproveitava bem o dinheiro das suas peças de teatro e palestras de esteta. Com uma autoconfiança incomum, transitava com os amantes por restaurantes de Londres, Paris e até pela sua própria casa, onde sua mulher cuidava dos dois filhos do casal e engolia o óbvio.

Na opinião do próprio Wilde, os romances da sua época não vinham “mais que roçando a superfície da alma”. Do que ele escreveu, justamente, talvez nada se compare a O Retrato de Dorian Gray, único romance que publicou. Com o absurdo domínio de psicologia e palavras que tinha, Wilde conectou como ninguém a profundidade ao humor. De quebra, nos deixou o lembrete do quanto uma vida precisa ser complexa para que saibamos algo realmente diferente.

 

 

 

 

 

Oscar Wilde, de Daniel Salvatore Schiffer
L&PM, 336 páginas, R$ 20

 

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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