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Publicado em setembro 28th, 2012 | por Leandro Pitz

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O FUTURO

O que terá acontecido com Miranda July? Penso que esta tenha sido a pergunta de todos os que estavam na expectativa e finalmente assistiram ao seu segundo filme, O futuro.

Insólita e poética como seu passado, ninguém imaginaria July tão sombria e triste com relação ao amanhã. Quase uma Baby Jane para quem já foi um sol de Sundance à Cannes, a querida e ultra-romântica neurótica de Eu, você e todos nós, debut que lembraria uma versão doce e estranha das Short Cuts de Altman, sem a acidez urbana e os clichês indie-hipsters de tantos diretores independentes.

O que fazer quando chega o momento de assumirmos o futuro de nossas vidas? Adotar um gato, talvez. Narrado pelo felino em seus prováveis últimos dias de vida, Patinha, como é chamado o animal, nos acompanhará com divagações filosóficas e místicas a respeito da solidão e da fatalidade de ser jogado ao mundo, enquanto espera o casal que irá adotá-lo: “Alguma vez você esteve no lado de fora? Quer dizer, não temporariamente, quer dizer, ter nascido do lado de fora. Nunca ter estado do lado de dentro. Nunca ter sido acariciado nem sequer uma vez. Já? Então você sabe da escuridão da qual não é apropriado falar”. Entre uma fala e outra, à espera do Godot redentor, a história de seus futuros donos.

Os 30 anos já se passaram. Sobra o tédio entre macbooks e pequenas alegrias suburbanas. Mas não pensem que Miranda tentaria aqui a solução inútil de enquadrar uma geração. O buraco é bem mais fundo e atravessa os tempos

Ele se chama Jason (Hamish Linklater), um técnico de informática que atende em casa, ela se chama Sophy (Miranda July), uma professora de dança para crianças. Os 30 anos já se passaram. Sobra aquele tédio sem fim entre macbooks e pequenas alegrias suburbanas no fim do dia. Mas não pensem que Miranda tentaria aqui a solução inútil de enquadrar uma geração. O buraco é bem mais fundo e atravessa os tempos. Os dois decidem dar um novo passo: adotar um pequeno animal. Só que no mundo inquietante de Miranda um gato não é só um bicho peludo à espera de carinho, um gato pode ser nossa própria alma ou o futuro da humanidade.

Diante da nova responsabilidade, o inevitável toma forma: dar-se conta de que não levamos a vida que queremos, ou melhor, não queremos a vida que levamos. Largar o emprego patético para vender árvores numa ONG ecológica ou criar o grande vídeo de dança mais cult do youtube? Tudo igualmente bobo, tudo igualmente desencontrado. O futuro continua um mistério difícil de se assumir. Tentarão receber respostas dos astros, mas a pobre lua responderá que nada sabe, que é apenas uma rocha flutuando há tanto tempo no espaço. Abandonar a ideia de salvar o mundo ou trepar com a primeira pessoa que atender o telefone? “O negócio continua, continua, continua”, nos avisa o gato. Triste gato, chegando à beira da morte, à espera da adoção por duas criaturas que do outro lado da grade esperam por si mesmas.

Mas então o que fazer quando precisamos encarar aquilo que só existe de relance, no canto dos olhos e que talvez nem seja real? A resposta de Miranda não é absurda. Pode ser ensimesmada, como escreveram por aí, mas não é fútil. A sinceridade em seu filme é que todos, seja o gato, a lua ou a própria diretora, estão procurando algo ou alguém. Jamais saberemos qual é nosso verdadeiro desejo ou nosso verdadeiro futuro, mas isso já é uma resposta cheia de beleza, mesmo que sem esperança. É uma resposta selvagem, mas que poderia iluminar tudo. “Depois de um tempo, um longo tempo, eu desisti. Não esperar mais. E acabou que viver é só o começo, e o começo acabou. Sou um gato de ninguém. Não sou nem um gato. Não sou nem eu. É quente. É luz. Continua acontecendo”.

Ao terminar a sessão, enquanto os créditos passam, já estamos na dúvida sem fim. Não é possível encarar tamanha criatura.

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Sobre o Autor

É formado em Design Gráfico e deformado em literatura e cinema da melhor forma possível. Prefere o grande silêncio mas sabe que pra isso é preciso falar. Convide-o pra beber mas não pergunte o que está pensando.



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