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Publicado em setembro 1st, 2012 | por Thiago Momm

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OBJETOS

O inglês Edmund de Waal teve uma grande ideia e tinha uma grande história. Não havia por que dar errado. Não deu.

Um dos principais ceramistas do mundo, de Wall é o autor de A lebre com olhos de âmbar, livro que acumulou elogios em diversos veículos britânicos e recebeu do suplemento literário do Times as solenes palavras: “Não só o livro da década. Fascinante, a ser guardado depois e relido por tantas gerações quantas as que descreve”.

Exagero. Não é para tanto. Sendo a edição inglesa de 2010, trata-se do último ano da primeira década do século, e nesses dez anos tivemos livros bem superiores. A lebre com olhos de âmbar venceu prêmio na categoria biografia, e aí há discussão possível. Na comparação com romances, sem chance.

Mas qual a grande sacada do autor? “Tire um objeto do seu bolso e o coloque diante de si. Você começa a contar uma história”, diz em uma passagem. Foi o que ele fez. Mantinha em casa 264 netsuquês, miniaturas japonesas entalhadas em madeira representando animais e pessoas em situações cotidianas variadas (vale busca no Google Images para não subestimar essas pequenas obras de arte), até que resolveu perseguir a história da coleção desde que elas foram compradas por um primo do seu bisavô na década de 1870.

Essa proposta, aliada à ótima disposição para pesquisa e sutileza narrativa, já garantiria um bom livro. De Waal, porém, tinha extras. Seu familiar que comprou os netsuquês foi Charles Ephrussi, o personagem que inspirou Charles Swann, de Proust. O fato engrandece, na história, a visita a Paris do final do século 19. Charles, um influente crítico de arte, era amigo de vários dos maiores pintores de então – Degas, Cézanne e outros.

Tire um objeto do seu bolso e o coloque diante de si. Você começa a contar uma história – diz Edmund de Wall, que sacou do bolso 264 netsuquês da família

Ele vivia de maneira extremamente confortável porque os Ephrussi eram prósperos banqueiros judeus. Quando os netsuquês vão parar nas mãos de Viktor, sobrinho de Charles, a história se desloca para um dos palácios de mármore da Ringstrasse, em Viena, capital do império austro-húngaro e caldeirão cosmopolita europeu do começo do século passado. Viktor e seus amigos levavam, em cafés, a vida dos filhos de grandes financistas, em “monotrilhos dinásticos”. Tragicamente, o nazismo chegará na década de 1930.

Tudo isso sempre testemunhado pelos netsuquês. Uma das vantagens de tê-los como fio condutor é o carisma que dão à narrativa. Enquanto os humanos lidam com seus grandes assuntos, os minúsculos netsuquês pedem contemplação, paciência, atenção à vista e ao tato. Não apenas unem uma família: conectam-na a partir de um assunto valioso.

Um filme análogo e tão bom quanto A lebre com olhos de âmbar é O violino vermelho, de 1998, que percorre a sina de um violino desde sua criação, no século 17, até leilão recente – passando, como os netsuquês, por diferentes países e momentos históricos marcantes.

Outro livro com bastante foco em objetos é O museu da inocência, romance de 2008 do turco prêmio Nobel Orham Pamuk. Os itens guardados obsessivamente pelo protagonista Kemal vivenciaram seu amor pela prima distante Füsun. Melancólico pelo fim do relacionamento, Kemal cria, com os objetos, um “museu da inocência”, que convida o leitor a visitar. Insatisfeito em ter apenas a história no papel, Pamuk abriu um museu de verdade em Istambul. Mais a respeito aqui.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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